domingo, 26 de fevereiro de 2023

Essências

Na pequena divisão a que chamavam cozinha, a fogueira a tremeluzir por baixo da trempe, onde, sentada, a panela do caldo em fervuras de vapores que se escapuliam pela fresta do testo e se sumiam nos ares... Junto ao lume, descansava o corpo fustigado do trabalho rude de mais um dia igual a todos os outros que a sina lhe ditou. As mãos calejadas e o rosto envelhecido a denunciar uma idade que ainda não tinha, contudo, conformado com a realidade de assim ter de ser porque nem sempre a vida se preocupa com as razões sem escolhas. Visto que já assim fora com o seu pai e antes com o seu avô e todos os outros que lhe antecederam sem escolherem... Ali perto, o vislumbre de uma figura feminina a tomar conta do lume e da panela do caldo. Talvez a mãe. Talvez viúva. Talvez ele seja o único filho de um rebanho de cinco ou seis que por ali foi ficando enquanto foi assistindo, uma a uma, à partida dos irmãos em busca de outras vidas que não aquela. Quase sempre há um que fica... Dali a pouco o caldo estará pronto e ambos terão uma malga no colo que sorverão em silêncio porque é em silêncio que as almas simples conversam. Cleo

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

A minha mãe a fazer o almoço






A minha mãe a fazer o almoço num fogãozito a gás de dois bicos, pousado em cima da pedra mármore junto do outro a lenha, que se acendia mais à noite porque à noite havia mais vagar. E daí a pouco os carapaus já fritos e o arroz de tomate quase cozido, a encherem o ar de aroma e a abrirem o apetite. Umas alfaces das do alfobre, tenrinhas mas ruins de arranjar, porque a serem precisas muitas em virtude de terem poucas folhas ainda. E a minha mãe a ocupar-se da tarefa e a dizer que era uma chatice para arranjar aquilo...
"Vai ali ao cimo da escada chamar o pai para vir comer", dizia-me ela enquanto temperava a salada e eu a ir à escada chamá-lo e daí a nada ele a subir a escada e a minha irmã, que era pequena ainda, a correr para debaixo da mesa à pressa, mais uma vez, como fazia todos os dias para se esconder dele... E ele a fingir que não sabia onde ela estava e a dizer alto"onde é que estará a Margarida?". E a minha irmã toda contente porque na sua inocência, muito bem escondida! E ele a continuar a fingir que não a descobria até que, já com a sopa meia comida, a espreitar para debaixo da mesa e ela lá e a fazer uma festa!...
 
Cleo

sábado, 12 de setembro de 2020

O sol a fugir pela encosta acima





 



O sol a fugir pela encosta acima, já a escapar ao Bugio e o milho ainda estendido nas mantas de trapos ocupando a maior parte do terreiro da eira da Pochana. E ao fim de mais um dia ensolarado de um Setembro quente, dos quatro ou cinco que já tinha, a reclamar por umas mãos hábeis a abanarem uma joeira... E, já agora, que se está com as mãos na massa, também um ventozito ao lusco-fusco, vindo das bandas da Vinha, para o ajudar a erguer antes de se medirem os alqueires razos e mais uma ou duas quartas bem medidas.
De maneira que, a prima Laurinda da capela toda atarefada a levantar o cesto no ar e uma chuva de grãos a arramalharem num panal e a leveza da imundicie das palhas, a voar toda com o vento como devia ser. Mais adiante, a Ti Miquelina também já a começar de erguer, mais o Ti Marques do Soito a dar uma ajuda à sogra visto ser ainda uma data de milho e a noite quase a chegar dali a nada.
Era uma azáfama de mãos a tratar, cada um do que era seu, a entrarem e a sairem das suas casitas, ora a irem buscar mais isto ou aquilo, ora a arrecadarem os sacos de serapilheira já cheios de milho limpo mais as mantas dobradas, enquanto conversavam coisas de ocasião uns com os outros. Parecia uma família alegre, porque, de vez em quando, uma risada geral a ecoar nas paredes das palheiras de pedra que por aquele tempo estavam ainda todas de pé e eram, também elas, uma pequena aldeia ao redor da eira.



Cleo

domingo, 2 de agosto de 2020

Não havia ninguém na aldeia


Não havia ninguém na aldeia, pelo menos que eu conhecesse, que limpasse tão bem os cômbaros, os caminhos e as levadas, de ervas e silvas como o Ti Armando. Sempre de roçadoira bem afiada na mão, "não havia pai para ele" nessa matéria. Viesse quem viesse, mas a perfeição era a sua especialidade.
Costumava encontrá-lo muitas vezes nos lugares por onde costumava passar, também eu a caminho ou à vinda de alguma tarefa do campo a que estava obrigada e lá andava ele entretido, a ceifar rentinho ao chão ou aos muros das calhadas. Ao outro dia, se ali voltasse a passar por acaso, até me dava gosto ver tudo aquilo assim, limpinho!
Mas para além do Ti Armando, toda a gente que tinha gado nos currais e sítios a precisarem de ser limpos, se não descuidavam de o fazer nas alturas certas. Arranjavam refeição para o gado e limpavam o que era seu ao mesmo tempo. E quem diz isso, diz matos nos pinhais em redor da aldeia e até fetos e caruma. Tudo lambido que era um mimo. Já hoje...
E não é que não houvesse fogos. Também os havia que bem me lembro de os espreitarmos de noite à janela. Nós e os vizinhos, a falarmos uns com os outros, a adivinharmos onde é que andaria o fogo, se perto ou longe, assustados pelas fagulhas a cairem do céu... E o clarão lá por detrás dos montes, até altas horas da madrugada. Não fosse o lume aparecer-nos à porta de repente e a apanhar-nos desprevenidos como da outra vez em que o sino tocou a rebate a meio da noite e todos a acordarmos alvoraçados.
Mas nunca nada como agora! Que em menos de nada, lá vai tudo...
 

Cleo

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Era raro porque costumava


Era raro porque costumava remediar-se numa gamelazita pequena que tinha, poisada no degrau do pátio. Dizia que até gostava mais de esfregar assim a roupa nas mãos... Mas, de vez em quando, lá ía ela lavar uns trapitos ao lavadouro. Uma blusa e um colete(soutiã) ou uma saia e um lenço da cabeça, com uma lasca de sabão azul e branco, tão seca e dura como os cornos de uma qualquer ovelha das que habitavam no curral da Lídia, mesmo em frente do tanque. E na pedra da soleira deste, havia quase sempre alguém sentado a conversar com quem por ali estivesse, abandonando o carrego num poiso jeitoso, para que o alívio das costas moídas... E nisto, a dona das ovelhas a chegar, encostada a uma sachola, com um saco de erva à cabeça e também ela a queixar-se de uma dor ruim nos "rinses" que a não largava por modo nenhum e a obrigava a manquejar. Mas que se havia de fazer? Se era tempo de regas e o gírio da Poça da Fonte já a contar, com tanta calhada de milho cheiinho de sede! De maneira que, de vez em quando, alguém a discutir ao pé da poça ou mesmo no caminho da levada, tudo por causa da água que era quase sempre pouca e a seca muita. De modo que, havia zangas que duravam anos e outras até, que foram levadas para a sepultura... 

Cleo

domingo, 26 de abril de 2020

Um não sei quê que a inquietava


Um não sei quê que a inquietava, porque as suas mãos a não estarem sossegadas. Sempre a ajeitarem a dobra do lençol, a alisarem o que já estava liso... Talvez fossem os pés frios, visto a botija da água quente que a nora lhe trouxera antes de ir para a luta da fazenda, já se calhar fria... Ou se calhar o silêncio. Ou se calhar o barulho dos girassóis ao cimo do quintal a mudarem de direcção, pois que o sol num constante desassossego sempre a rodar! O olhar fixo no vazio do quarto minúsculo, com aqueles olhos cor do mar que nunca vira, brilhantes de gastos, a vasculharem o esconderijo onde se amontoavam os dias iguais. Talvez à procura de uma razão que justificasse aquela sua inquietação. Ao ver-me ali sem me esperar, um contentamento a encher-lhe o rosto de felicidade. E pediu-me que me sentasse um bocadinho na borda da cama, visto o filho, sempre cheio de afazeres, nunca ter vagar... E falou-me de coisas que lhe vinham à memória, a evocar uma infância descalça que a sorte lhe dera. Contou-me um punhado de estórias de um outro tempo distante, mas que a memória guardara cheias de pormenores... Contou-me do parto de dois dias que lhe calhara pelo natal, que lhe haveria de trazer dois gémeos(um rapaz e uma rapariga), mas também do trauma que lhe deixara por ser preciso um médico e ele lá tão longe, para as bandas de Côja e a ter de se ir chamar, de burro... E ainda criança, aquando da sementeira do chão grande da "Despresos", da fúria repentina que cegou o pai por instantes, irado por qualquer coisa que não correu de feição e lhe atribuiu a culpa, atirando-lhe de imediato com o que tinha na mão pelo lombo acima e que quase lhe quebrara a espinha. Era o ancinho que servia para esventrar a terra, que por sorte caiu bem... Caiu de costas nas suas costas. Agora se fosse ao contrário, é que seria uma verdadeira desgraça! Reparei que as suas mãos se tinham quedado, com os polegares delicadamente encostados um ao outro, em cima da dobra do lençol. E enquanto falava, o seu rosto sorria-me com os olhos, num agradecimento sem fim.

 Cleo

domingo, 19 de abril de 2020

Se ficar muito quietinha


Se ficar muito quietinha, consigo ouvir as vozes dos que por aqui passavam na labuta diária da vida. E lá vem a Ti Esmeralda, com uma cesta de estrume miúdo das galinhas à cabeça. Diz que vai semear as abóboras e elas gostam de um mimo assim, porque a crescerem mais depressa, mais viçosas e lusidias... A minha mãe a relatar as doenças e as dores por entre as favas e as ervilhas a precisarem de ser sachadas... A Ti Miquelina que chega com um molho de erva às costas, porque o gado ainda sem almoço... O marido, com a espinha dobrada para a frente, a ceifar o cômbaro da levada perto da poça... O Ti Zé Ramos das Luadas, de máquina de sulfatar às costas, a dirigir-se para o bordo da mesma poça porque mais uma máquina de sulfato p'ra fazer... Mais adiante, a prima Laurinda a esparrar um corrimão de videiras farfalhudas e os cachos a precisarem de sol... O Ti Elísio a aguçar uma roçadoira na pedra cravada na parede do palheiro... O meu pai a chegar com uma sachola ao ombro, porque está na altura de assentar os feijões da quelhada do limoeiro e a água em dia de ser nossa. E dali a nada quase noite e tantas outras coisas ainda para serem feitas! 

 Cleo

De vez em quando, lá vinha a Tia Chica




De vez em quando, lá vinha a Tia Chica a subir a rua com uma caixa de madeira à cabeça, que a rodilha ajudava a equilibrar - Sardinha... quem quer sardinha? Olhe que é fresquinha! - Vendia-se á meia-dúzia e á dúzia a maior, ou então ao quarteirão se fosse da miúda, boa para embrulhar na farinha e deitar à frigideira. 

De maneira que, de vez em quando, para acompanhar os pimentos fritos, uma sardinhazita assada nas brasas em cima de uma fatia de broa e um pinguito de vinho para empurrar. Chamavam-lhe o "Jantar", ainda que pouco passasse do meio-dia... 

 Cleo

domingo, 5 de abril de 2020

.. restos de ontem


.. restos de ontem, são fragmentos de um tempo que se foi. São partículas inquietas, que pairam no vácuo do pensamento... 

De quando em quando, dou por mim a tentar galgar muros de pedras gastas, na esperança de que o tempo não houvesse passado do outro lado, onde deixei ficar a primeira das minhas vidas. Mas a subida é íngreme. O tempo molestou-me a carne e o corpo perdeu a agilidade. Com as mãos em sangue e os pés entorpecidos, vou escalando a custo o que ainda me parece ser tanto! Talvez devesse esperar um pouco, apanhar o tempo distraído de mim e fintar a vida que teima em me dificultar as coisas. Ou então, talvez devesse morrer primeiro e renascer depois. 
Começar tudo de novo!... 

Cleo

Desassossega-me o pensamento


Desassossega-me o pensamento de que o meu corpo dormita enquanto a alma, aflita, se extenua em correrias impossíveis contra o tempo, resgatando das masmorras do esquecimento, aquilo que por direito me pertence. São pequenos nadas que se me afiguram ser uma fortuna, visto que o sentimento é coisa para não ter preço. De modo que, de vez em quando, lá vou eu em busca de mim... Revisitando-me noutros lugares e revivendo fragmentos aqui e ali, de onde me encontro noutros eus. Eus que, indiferentes à minha existência de agora, continuam entretidos nos seus afazeres e, claro está, ignorando a minha intenção de os tentar trazer num punhado de palavras, para este que será o longínquo futuro de então.

Cleo