quinta-feira, 7 de março de 2019

Tenho em mim um desassossego


Tenho em mim um desassossego de alma, uma alma aflita... diz-me a cara-metade. Uma espécie de chaga que me atormenta o pensamento e me tolda a mente inquinando-me o espírito faminto de paz. É como um rio que, chicoteado pela tempestade corre desgovernado, galgando margens e levando consigo tudo o que lhe aparece pela frente. E o pior é que lhe sinto a fúria e me deixo ir na apatia da frágil canoa sem remos e à mercê da corrente... Pode ser que o sol volte amanhã, a fazer lembrar as primaveras de ontem, onde jardins encantados se cobriam de borboletas esvoaçantes e multicolores que poisavam aqui e ali e também nos sorrisos das pequenas flores que cobriam o chão da minha inocência e me resguardavam do cinzento carregado das nuvens dos invernos que ainda estariam por vir. Ninguém me esclareceu do perigo nem me advertiu para o facto de um dia me achar tão longe a desejar voltar ao sítio onde deixei as primaveras que julgava serem eternas. O que me vale são os retratos do álbum da memória que me não deixam esquecer que a felicidade existe e que podemos ser felizes à distância de um piscar de olhos, se nos contentarmos com isso. São tão simples as coisas pequenas, como simples são os gestos que as tornam tão importantes quanto a nossa capacidade de lhes chegar.

Cleo

quarta-feira, 6 de março de 2019

Paisagem a roçar o surreal




Paisagem a roçar o surreal onde as quelhadas(socalcos) com os seus muros altos(dado a inclinação do terreno), se ligam entre si através de escadas improvisadas, em alguns casos não passando de pedras suspensas nos próprios muros. Hoje tudo isto se encontra ao abandono, mas em tempos idos eram belos retalhos verdes onde o milho era o que predominava, pois era dele que se tirava o pão do homem (broa) bem como o dos animais (palha). Aos de hoje, com tudo o que têm, ser-lhes-à difícil acreditarem em certas coisas pelas quais passaram muitos dos seus antepassados. Pensarão que tudo não passa de histórias... mas não! Acontece que a vida era bem difícil por estas bandas. Fizesse sol, chovesse ou nevasse, era da terra que dependia a vida de famílias onde as bocas eram mais do que muitas e o estado social ainda não tinha sido inventado. Lembro-me de haver pobres que calcorreavam os caminhos das cabras, de aldeia em aldeia, à procura de quem lhes desse uma côdea de broa ou alguma peça de roupa de algum defunto que se tivesse finado, que sempre haveriam de ser melhores do que aqueles trapos que traziam vestidos. Botas, se aparecessem, também não se recusavam, embora os pés já estivessem acostumados a andar descalços. Depois vieram as reformas, dadas por Marcelo Caetano e deixou de haver pobres. Até quando? Fica a pergunta no ar, pois parece-me que estamos a entrar num novo ciclo(a história da humanidade está cheia deles) e nada nos garante que estas terras não voltem a ter gente a cuidar delas. Estiveram de pousio tantos anos que o milho haveria de voltar a ser o ouro em grão da Serra do Açôr.

Cleo

Estive sempre aqui.


Estive sempre aqui. Nunca abandonei esta casa... Naquela manhã em que encontraram o meu corpo já frio, muito embora já o esperassem, mesmo assim, não deixaram de ficar chocados. Afinal, uma morte é sempre uma morte! A doença, especialmente aquela que não tem cura, é como uma espada afiada e apontada à nossa cabeça, que pode descair a qualquer instante. E a que eu tinha por cima da minha, descaiu durante a noite, tão silenciosamente como quando apareceu sem ser esperada e se instalou confortavelmente à espera que chegasse o momento preciso do meu ultimo sopro de vida. Foi o meu irmão mais novo quem me encontrou primeiro, quando na sua inocência de criança se abeirou da minha cama para me acordar, na esperança de que naquele dia eu tivesse mais algumas forças e pudesse por fim levantar-me para poder ir brincar com ele às escondidas no jardim. Era tudo o que ele queria!... Entre choros e soluços, levaram-me o corpo dentro de uma urna branca, mas não puderam levar-me a alma... Essa continua aqui, presa aos sentimentos e às lembranças de quem me concebeu e me deu a vida. A mesma vida que aquela espada gelada me roubou muito antes de ser vivida. Não é justo! Já partiram todos, mas eu ainda continuo aqui, presa a uma vida que não vivi... Já só restam os escombros, mas é o único lugar que conheci deste mundo ao qual já não pertenço há séculos, mas que também foi meu. Talvez um dia me liberte... quando já não restar nada a não ser no pó de uma vaga lembrança. Uma lembrança onde, mesmo assim, ainda permanecerei e farei parte da história de uma casa assombrada, que passou de geração em geração e alguma avó se lembrar de a contar ao seu neto. E será uma daquelas, que, inevitavelmente, começam sempre por "era uma vez" ...


Cleo

De quando em quando, dou por mim


De quando em quando, dou por mim a tentar galgar muros de pedras gastas, na esperança de que o tempo não houvesse passado do outro lado, onde deixei ficar a primeira das minhas vidas. Mas a subida é íngreme. O tempo molestou-me a carne e o corpo perdeu a agilidade. Com as mãos em sangue e os pés trôpegos, vou escalando a custo o que ainda me parece ser tanto! Talvez devesse esperar um pouco, apanhar o tempo distraído de mim e fintar a vida que teima em me dificultar as coisas. Talvez devesse morrer primeiro e renascer depois. Começar tudo de novo...

Cleo

Há portas fechadas


Há portas fechadas que não servem para nada. Estão ali, quietas, mudas, indiferentes ao tempo que faça. Estão ali só porque sim ou porque o último que a fechou não voltou para a abrir antes da derrocada. Se alguém chegasse com a chave enferrujada que tivesse encontrado pendurada num prego de uma parede contígua, a introduzisse na ranhura da fechadura e rodasse o trinco , provavelmente até seria capaz de a abrir, mas não encontraria nada para lá da soleira... só o abismo das ruínas. Há portas que não precisam de ser abertas quando se espreita pela frincha e se fica a perceber, não darem afinal, para nenhures.

 Cleo

Quisera o tempo


Quisera o tempo não ter passado e esta ruína não o seria! Mas vieram invernias e calores demasiados em anos aturados, arremessando-lhe com ventanias e chuvas infinitas que outros tantos sóis crestaram e corcundas surgiram destruindo o alinhamento das pedras. As traves caíram, os barrotes não aguentaram e um estrondo de lages se abateu sobre o chão de terra, rugindo no silêncio da noite que permaneceu aparentemente imperturbável. Ninguém viu. Ninguém ouviu. Bem, talvez os pássaros se tenham assustado. Ficou o esqueleto, cheio de dignidade, porém, vazio daquilo que foi...

Cleo

Trazia uma vida inteira a pingar-lhe dos olhos.



Trazia uma vida inteira a pingar-lhe dos olhos. Na memória, agruras e pobrezas (tantas) que as pedras não dizem. Embrulhada na capucha negra, enxotava o frio que lhe abocanhava os ossos. Mirava ao longe a terra de onde nunca saiu, cheia de estórias de misérias de tempos idos que ninguém ouviu... Agora, que importância terá isso, se a beleza é tudo o que mais importa! Imagens a correr o mundo, a trazer autocarros cheios de gente com máquinas fotográficas e que se debulha em deslumbramentos, como se não houvesse existido passado algum e aquilo tudo já tivesse nascido assim.

Cleo

terça-feira, 5 de março de 2019

Tudo morre um dia...




Tudo morre um dia... Este começo de conversa, traz-me ao pensamento uma frase que ouvia muitas vezes da boca da minha avó, quando, nostálgica, me contava certas coisas que íam emergindo das suas lembranças de outros tempos bem mais remotos ainda. Tempos esses, de onde, de entre uma ninhada de doze irmãos, ela era apenas mais uma criança do campo que nunca teve tempo para o ser. Acho que naquele tempo ninguém o era! Principalmente, se tivessem o infortúnio de terem nascido em berços onde a pobreza morava também. Cedo lhes eram atribuidas pesadas tarefas, não importando muito a tenrura da idade. Sendo que, a de tomar conta dos irmãos mais novos, era tida como a maior e mais importante de todas. À medida que íam crescendo na idade, outras se lhes seguiam, cada vez mais duras até atingirem o estado adulto, num ciclo sem volta. Ainda assim, a minha avó, mantinha aquele ar alegre de riso fácil que lhe era tão característico, mesmo quando me falava das tareias que apanhava por não ter feito esta ou aquela coisa ao jeito do seu pai, homem rude e austero, que lhe não poupava o corpo na hora da fúria, quando esta o assaltava e que em certa ocasião, só por milagre lhe não deu cabo da espinha, com um ancinho mal atirado. Por isso, era-me difícil compreender na altura, que apesar das agruras da vida, ainda rematasse a conversa com aquele: "Ai ai, tudo se vai atrás de quem o deixa". Não era este o rumo que queria ter dado ao texto quando o comecei com aquela frase lá de cima, mas foi assim que ele se escreveu sozinho..

Cleo

Pode até já ter passado o dia






Pode até já ter passado o dia que dizem ser o indicado para te lembrar. Mas... que importância tem isso, se te trago sempre comigo e todos os dias? De vez em quando ouço-te a chamar da porta da oficina para te ir amparar uma prancha mais grossa que não consegues serrar a direito sem a minha ajuda. Ou para segurar numa porta de um guarda-fatos enquanto fixas os parafusos ou lhe dás umas marteladas por dentro até as peças ficarem alinhadas. Ou simplesmente para te segurar na gambiarra enquanto fazes um risco preciso com o lápis que tiras da orelha. Hoje foi dia de aplainar. O barulho da máquina arrancou-me da cama mais cedo. Estas aparas que te estorvam nos pés ficam para mais logo, da parte da tarde, que agora não tenho vagar. Depois venho cá, apanho-as todas e dou-te uma varridela no chão como deve ser. Na prateleira, a velha telefonia (a mesma que nas tardes de domingo, te fazia companhia no relvado do Parque Eduardo VII, quando andavas por Lisboa) sempre na Rádio Renascença por causa das notícias e dos fados da Amália. De vez em quando lá vais buscar as cassetes que metes a tocar no pequeno aparelho de teclas brancas e uma vermelha na extremidade, onde o Alfredo Marceneiro e o Carlos do Carmo te cantam saudades de outros fados... Daqui a nada chega o ti Américo com o caldeiro do leite das cabras na mão e ambos ficarão a conversar enquanto esperam pelo sr. Alberto carteiro, que haverá de aparecer por volta das três horas, como de costume, com a sacola das cartas à tiracolo e a assobiar uma moda. Deve trazer a "Comaca de Arganil" e um punhado de novidades disto e daquilo que aconteceu aqui e ali. Haverá ainda tempo para um copo de vinho na adega, dois dedos de conversa e umas quantas quadras a rimar daquelas que se costumam fazer de improviso, nomeando alcunhas e feitos de conhecidas figuras das redondezas. Hão-de dar umas boas gargalhadas antes de se despedirem com um alegre e já saudoso "até amanhã". Depois, ele abrirá a caixa do correio vermelha que está na parede da nossa casa e tirará do seu interior o monte de cartas que guardará na sua sacola castanha. Ajeita-a ao ombro e de novo o assobio a acompanhá-lo enquanto vai descendo a rua sem pressas. Daí a pouco o barulho da motorizada a dobrar a curva das aveias. Vês? É assim que te vou lembrando todos os dias, à medida que me vão surgindo estes pensamentos de retalhos nossos e por nós vividos, algures num tempo ido e agora apenas por mim, revividos.

Cleo

Mergulhada no seu mundo


Mergulhada no seu mundo de demências(hoje sabemo-lo terem este nome e estar associado à idade avançada das pessoas, mas naquele tempo nem se pensava nisso), era sobretudo de noite que se evidenciavam mais as suas visões de delírio. De modo que, o chamamento por "elas" era constante por causa de uns bichos que se lhe afiguravam passear pelas tábuas do frontal que eram também as paredes do cubículo onde morava há mais de dez anos. Primeiro por birra e depois por imposição da sua própria condição física que entretanto se apoderou do frágil corpo magro, limitando-lhe os movimentos e atirando-o de vez para a cama de ferro encostada a um dos lados, só interrompido pelas cada vez mais frequentes idas ao bacio, para se aliviar de todos os fluídos que lhe pareciam inundar todo o interior e se insurgiam em borbotares incontroláveis de urgências... Ali comia, sentada na cama, não dispensando por coisa nenhuma o pinguito de vinho que lhe metiam no fundo do copo e que para ela era como um elixir de vida. Ah, e de quando em vez um pires de arroz doce (então avó, gostou? Ao que ela respondia de imediato: o que é doce nunca amargou!) a fazer-lhe brilhar os olhos cor de mar. A maior parte do tempo falava em voz alta com os botões do seu casaquito de malha que lhe compunha os ossos dos ombros. Falava das coisas do antigamente que tinha gravadas ainda na memória, tão frescas como se o tempo não houvesse passado desde essa altura. Ao mesmo tempo que dobrava, desdobrava e voltava a dobrar vezes infinitas, o pequeno lenço de assoar numa tentativa de perfeição em forma de quadrado. De quando em vez lá passavam em correria uma ou a outra neta ou até mesmo as das uma a seguir à outra e que também moravam na mesma casa. Bem as chamava para se sentarem um pouco ao pé de si na borda da cama, com a promessa em mente de mil histórias para lhes contar(que quando mais pequenas ali as demoravam), mas elas, com tantos outros afazeres mais apelativos a tomarem-lhes conta dos destinos imediatos e igualmente da vontade. De maneira que, lá se conformava com a sua imensa solidão e às vezes até cantava para quebrar a monotonia daquela existência errante e confinada à clausura naquela espécie de antecâmara onde esperava com tanto vagar, a morte já anunciada desde o dia em que nascera, decorria ainda o já tão longínquo ano de 1896 do Séc. XIX.

Cleo

É como quem mastiga uma côdea de broa seca


É como quem mastiga uma côdea de broa seca, sem dentes... E coisas a embrulharem-se na saliva do pensamento! Esquecimentos que se não entendem, onde coisas novas a sumirem-se por entre os buracos do sobrado da memória. Enquanto isso, o inesquecível passado a intrometer-se sempre e a inquietar o silêncio que grita das profundezas da memória!

 Cleo