sábado, 1 de fevereiro de 2020
Parece que ainda a estou a ver...
Parece que ainda a estou a ver... Em frente ao balcão que dava para a cozinha, sentada num banquito de madeira baixo, quase rente ao chão, mesmo de frente para forno de cozer a broa, no cantito entre o telheiro e o cimento que antes fora uma quintã. A minha avó, a afiar a faca já gasta no meio de tanto a afiar, no bordo do alguidar de alumínio, antes de começar a descascar as batatas para a mistura da sopa ou para acompanhar as sardinhas fritas da ceia. Ou até mesmo, as couves das galinhas que ficavam tão finas como se fossem para o caldo verde. Depois, o resto do tempo, passava-o a varrer com um pente de dentes finos, não os piolhos de outros tempos, mas a caspa que lhe estorvava no casco da cabeça e lhe provocava comichão... Daí a um pedaço, um entrançado de fios esbranquiçados, enrolados e presos num toutiço com meia dúzia de ganchos ao alto da cabeça. Depois, o triângulo negro do lenço compunha o resto. Guardava no bolso do avental o pente e esperava que a noite chegasse e a levasse de volta à cama, onde estendia os ossos perros em virtude do peso dos anos.
Cleo
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
Com o propósito de irem assistir
Com o propósito de irem assistir a uma festa que se realizava nos Cepos e tendo eles sido convidados para o evento, por familiares que lá residiam, não se apurando no entanto, o motivo pelo qual a dita festa ser noutra estação que não a do verão, que é, como se sabe, o mais acertado. De maneira que, sendo que as duas terras ainda bastante distantes uma da outra e não havendo na época, estradas que as ligassem, era preciso abalar ainda de noite, de lampião aceso na mão, por caminhos de cabras contornando os montes e descendo aos vales. Tal como o faziam os rapazes novos, quando, de terra em terra de noite por causa dos bailaricos e das raparigas nas festas... Acontece que, por talvez ser inverno ou princípio da primavera, tinha caído um nevão e o caminho sem se distinguir por baixo da neve. Ainda para mais, sendo de noite e as luzes que levavam, sem alumiarem nada por serem tão reles. Entre dúvidas de "ser mais por aqui ou menos por além", escorregadelas e desesperos de pés gelados e dormentes, havia ainda quem se tivesse arrependido de não ter ficado mas era em casa, ao pé do borralho, que lá é que se estava bem de certeza. Quem quer festa, sua-lhe a testa! Mas isso era se fosse de verão...
Cleo
Cresci entre casas de pedra
Cresci entre casas de pedra com varandas de madeira e tapetes de quintãs, para os despejos das águas sujas, onde se limpavam os pés antes de subir as escaleiras altas e entrar em casa. E estas a desembocarem num corredorzito de frontais e sobrado de tábuas corridas, já bastante carunchadas, a denunciarem a passagem do tempo. Uma vassourazita de giestas a varrer o cachiço do braçado dos gravetos para o lume, porque dali a nada seriam horas de fazer o caldo. Este era um tempo em que se contavam muitas estórias, visto nestas casas, quem lá morava, não me lembro de lhes ouvir um lamento que fosse pela falta de um rádio a pilhas... Não sabiam como era nem se interessavam por tal(já outras mais novas, não perdiam um folhetim do "simplesmente Maria", nem que para isso tivessem de levar o aparelho e o pendurar num ramo de oliveira, enquanto se cavava a terra). Normalmente eram viúvas vestidas de negro, com tamancas nos pés, xaile pelas costas e lenço na cabeça atado num laço ao queixo. Contavam-me estórias do tempo dos lobos na serra e dos cordeiros que lhes levavam nos dentes, sem que pudessem fazer fosse o que fosse, por terem pouca idade e serem quase da mesma altura das ovelhas que as mandavam guardar.
Cleo
O banco de madeira a postos
O banco de madeira a postos no meio da rua. Os homens a chegar para ajudarem a segurar o animal. O bicho, assustado, a ser arrancado à escuridão do curral. E ouvem-se gritos lancinantes de aflição, sem ninguém a comover-se, porque é mesmo assim! Eu a sair porta fora e a correr o mais que podia, até ao mais longe que conhecia, que era ali logo a seguir aos palheiros da Eira Cabeça, a aninhar-me num canto da eira de cimento de malhar o centeio e a meter os dedos nos ouvidos para não ter de o ouvir... Voltava daí a um pedaço, quando, ao tirar os dedos dos ouvidos e já nenhum grito a ecoar ao longe. E ao voltar encontrava uma azáfama de carquejas em chamas a passarem no corpo do animal prostrado no chão e um intenso cheiro a chamuscado. Uma mangueira ligada e água a empurrar o sujo ao mesmo tempo que várias mãos a esfregarem aquela pele rosada, afinal, tão parecida com a nossa, agora, nua de pêlos. E não era só a pele, porque dali a pouco, quando lhe abrissem a barriga e o deixassem todo à mostra por dentro, alguém a dizer: " se queres ver o teu corpo, mata o teu porco". De modo que, dalii para o chambaril preso no barrote, num esforço de homens habilitados e o animal pendurado num instante, de cabeça para baixo a escorrer sangue para uma gamela pequena. Um corte na barriga e as tripas cá para fora, entornadas numa gamela maior. Dali a nada, as mulheres de roda delas a lavarem-nas na bica de água corrente, no poço do quintal. No ar, um cheiro a fezes indescritível... A minha mãe a cozer o sangue que alguém aparou na hora da matança. E os homens a matarem o outro bicho com os quadrados de sangue cozido e talhadas de broa a acompanhar. Tanta coisa que me vem à ideia ao rever estas imagens onde também eu estou, neste lugar tão meu, de uma primeira vida já lá tão longínqua, de um ano em que até a neve apareceu e ajudou a manchar de vermelho vivo, o chão da rua.
Cleo
quinta-feira, 16 de janeiro de 2020
No tempo em que me eu criei
No tempo em que me eu criei, metia-se uma côdea de broa na algibeira e abalava-se, de barriga vazia, com uma corda e uma roçadoira para o mato..." - Esta era uma frase que me lembro de ouvir algumas vezes, especialmente quando havia necessidade de fazer ver a diferença entre esses tempos de miséria e os que se viviam na actualidade da época. Portanto, éramos uns sortudos em ter nascido naquele tempo em que as dificuldades já eram menores, embora o não fossem assim tanto, para todos. De maneira que, na nossa casa, antes da desjejua, ainda era preciso ir abrir as galinhas, fechadas na escuridão do poleiro durante a noite e já mortinhas por ver a luz do dia, desde o CÓCÓRÓCÓCÓ madrugador do rei da capoeira. Só após esse pequeno mandado, uma ou duas fatias de pão de segunda em cima da torradeira de levar ao lume, e ficar ali a tomar conta para prevenir o cheiro a queimado e depois se barrar de "planta". Para empurrar as torradas, uma canecazita de café de cevada que se entornava da cafeteira de alumínio, com um pinguito de leite a mudar-lhe o negro da cor. A alternativa seria uma tigela de pão migado com o mesmo café a ferver espalhado por cima para amolecer e um pinguito de leite ainda mais pequeno que o da nossa caneca, a tingir tudo aquilo de castanho (poderia até ser mais, mas só se fosse do das ovelhas ou das cabras e esse com um sabor e consistência demasiado fortes para a nossa esquisitice). Mas, mais uma vez, não era para todos... Havia casas, em que nem torradas de "planta", nem leite dos pacotes de cartão, ou sequer daquele em pó que, de vez em quando, também aparecia na nossa casa. De modo que, comiam uma malga cheia das sopas de pão migado, que, por vezes, até eram de broa seca e rija, só com o café negro e a colherzita de açúcar por cima, a adoçar e a ver se assim arranharva menos na garganta. Vi muita vez, quando ia chamar os colegas de jornada a caminho da escola, enquanto esperava que deglutissem a malga que abraçavam com as mãos sobre o regaço, sentados num mocho junto da lareira acesa. Nem sei se eles saberiam do sabor das torradas... Perante tudo isto, éramos, portanto, umas felizardas no que tocava ao luxo na hora da desjejua!
Cleo
segunda-feira, 13 de janeiro de 2020
A minha mãe, grávida da minha irmã
A minha mãe, grávida da minha irmã já quase no fim do tempo, com um sarrão de milho às costas e eu logo atrás de si como se fosse a sua sombra, na minha ainda tão tenra e míope existência, dado que, o meu mundo com manchas disformes e sem nitidez. Mas ninguém ainda a ter-se dado conta, porque os óculos grossos no meu nariz só lá para os cinco anos e tal de idade e a fazerem bastante diferença desde logo visto que os meus pés lá muito ao longe, poisados num chão esquisito e cheio de pormenores de pedrinhas e outras coisas que eu nunca tinha visto àquela distância... A ribeira que fazia trabalhar o moinho, a mais de uma hora e meia de caminho pelo meio dos matos e do pinhal, lá para os lados dos castanheiros do Carcavão. Por fim, já cansadas e de pernas a doer, lá chegávamos ao nosso destino. Aquilo era uma espécie de um casinhoto de pedra, meio engolido já pelas silvas, onde uma mó a fazer barulho numa azáfama incansável de andar à roda, a transformar os grãos que se entornavam na moega, numa chuva branca de farinha, graças ao ensurdecedor caudal da água que nos impedia de ouvir fosse o que fosse para além da dança das pedras a roçarem uma na outra. Era um dos moinhos do Carcavão, pertença de muitos mas com ordenada organização e serventia. Cada um na sua vez, portanto! Daí por um bom pedaço, quando já nenhum grão por moer, voltava-se a encher o sarrão com a farinha, varria-se tudo em volta bem varrido e era hora de nos metermos de novo ao caminho, pois que o sol já se tinha escondido naquele barroco e sem lua à vista, em breve seria noite cerrada! No dia seguinte, haveria de se cozer a broa e para a merenda, haveria quase de certeza, uma esmagada de sardinha ou de chouriça, daquelas de nos fazer crescer água na boca, visto que um petisco daqueles era sempre um renovado motivo de alegria.
Cleo
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
Certa ocasião
Certa ocasião, por alturas de chegar os machos às fêmeas para que estas emprenhassem e viessem a parir uma ou duas crias, tendo em vistas já, o leite para o queijito das merendas, quando estas a proporcionarem um dos melhores momentos numa qualquer jornada de trabalho na fazenda.
De modo que, havia que tratar de arranjar um espécime de boa qualidade!... O que nem sempre se adivinhava ser tarefa fácil, visto que os poucos que havia para o efeito já andarem ocupados e terem outros haréns em lista de espera. Em alternativa, telefonava-se para o "piriscas" da Benfeita a ver se ele arranjava algum antes que a lua passasse. E desses ainda havia aqueles que não se empenhariam com o êxito esperado na tarefa que lhe estava destinada, acabando por irem parar mais cedo às caçoilas no forno em dias de festa, logo que as houvessem.
Portanto, tendo um feliz contemplado à sua espera no curral de uma prima do Monte Redondo que esta lhe havia prometido por carta e tendo já assente o dia de ir buscar o animal e tudo, só lhe faltava a companhia para que não tivesse de ir sozinha por todo aquele caminho até à Deguimbra e ainda o que dali faltava até ao Monte Redondo, que, ficava lá longe, do outro lado do redondo do monte...
Dada a devida autorização do meu pai, lá vamos nós as duas a meter pés ao caminho, por aqueles atalhos acima, por meio de matos e tojos que rascanhavam as pernas, até à estrada da lomba, que, do que me lembro, nunca mais acabava... Ao fim de alguns pares de horas, lá chegámos, por fim, à terra do chibo que haveria de ser o pai dos cabritos das suas cabras, que o esperavam em anseios caprinosos de balidos animalescos...
De maneira que, acabado o lanche na casa da prima e dado que a Lídia uma mulher solteira e ainda com boa aparência, houve também tempo para um episódio manhoso, disfarçado o mais que possível por via da minha ainda que inocente presença, que envolveu a fugaz aparição de um homem calvo por detrás de uma porta encostada, mas que foi rejeitado na hora por falta de empatia, ou, se calhar até, de vocação.
Embora já um pouco tarde, o que haveria de nos levar à chegada do entardecer e posterior chegada da noite ainda pelo caminho, lá viemos com o animal preso por uma corda e cheio de teimosia, talvez por não lhe apetecer andar com estranhos, por todo aquele imenso caminho de volta à nossa terra.
Cleo
sexta-feira, 3 de janeiro de 2020
Trago ausências de marços
Cleo
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
Chegam-me do fundo do tempo
Chegam-me do fundo do tempo as vozes dos que se encontram ao passar na rua. Uma rua estreita, de penedos lisos e escorregadios das águas que das janelas se entornam de bacias sem culpas... Mulheres carregadas com cestas à cabeça e homens de enxada ao ombro e sacos de serapilheira p'la cabeça, a protegerem-se da morrinha com que o dia acordou. A falarem de coisas ocasionais como as dores que sentem no corpo, de sucedidos novos ou antigos, ou até, de feitos ainda por fazer. São pedaços de ontem. Pequenos nadas entrecortados de silêncios macios de musgo. De vez em quando, uma ou outra gargalhada entre uma piada e um convite p'rá matança do bicho na escuridão da adega... E eu, saltitando no muro encostado ao caminho ao fundo do quintal, entretida com as pequenas descobertas da vida que brotavam entre as pedras, sem fazer grande caso das conversas dos adultos. Mas as vozes, inaudíveis, a ecoarem num murmúrio, neste retalho de escrita que se perde no tempo...
Cleo
sábado, 14 de dezembro de 2019
Naquele tempo, uma barra de sabão azul e branco
Naquele tempo, uma barra de sabão azul e branco a par do petróleo para o candeeiro, das mercearias e do bacalhauzito que se trazia da taberna, quer fosse a do Eduardo ali na aldeia ao lado, ou a do Artur do correio na Benfeita, bem como a do Nunes à praça e ao Domingo depois da missa, era tão natural como hoje se chegar ao café do Arlindo das Luadas e se mandar vir uma bica ou uma serradura fresquinha. Coisa que naquele tempo nem havia. De maneira que, lá se cortava um pedaço grande quando já só umas lascas, boas para dar às garotas que acompanhavam as mães, se entreterem a lavar as peças miúdas. Um alguidar cheio de roupa, à cabeça ou de braçado e ala para o lavadouro por via de lavar a roupa suja... Os lugares melhores, quase sempre ocupados pelas mesmas, a darem uso às pedras esfregando-lhes e batendo de vez em quando, a roupa enterriada das fainas da terra. Falaças e gargalhadas mas também lamentos e choros e até corte e costura da vida alheia... Tudo se lavava no lavadouro da minha aldeia. Uma sabonária para a roupa branca que por ali ficava dois ou três dias a diluir o sujo, até haver oportunidade, entre os afazeres domésticos e os do campo, para ali voltar por modo de a voltar a esfregar e a que estivesse mais custosa, deitar a corar na relva do quintal ou nos muros e em casos mais graves, então lá se fazia, por fim, uma lixívia para branquear melhor. Eram precisos, portanto, vários dias para lavar a roupa de uma ou duas semanas de uma casa de família composta por meia dúzia de pessoas ou mais. Hoje, nem pessoas nas casas a sujarem roupa, nem mulheres para a lavarem, nem água no tanque...
Cleo
quarta-feira, 4 de dezembro de 2019
A prima Olinda
A prima Olinda era uma daquelas pessoas de bem consigo e com a vida. Sempre com bons modos e de sorriso plantado no rosto. Morava em Lisboa, mas, de vez em quando, vinha com o Américo Pêras na sua "For Transit", por via de vir tratar das árvores de frutos, ou pela apanha da azeitona que ainda lhe rendia alguns bons litros de azeite que lhe dava para os gastos e ainda sobrava. Ou então só porque sim. Por gostar de vir até à sua casa, de se sentar no seu terraço, todo ele enfeitado com canteiros de hortenses e brincos de princesa, mas também de dezenas de vasos de sardinheiras em toda a volta. Dali avistava-se parte da aldeia, sendo que também se podia ver as casas e apreciar os quintais dos seus outros dois irmãos, Jaime(Nabiça) e Emília. Sempre que a sabia por lá, tratava logo de a ir visitar, na esperança de que, com ela, tivesse vindo também a sua sobrinha, uma miuda da minha idade e com quem tenho memórias de algumas tardes de verão a brincar e até andar de patins. De maneira que, de vez em quando, lá se partia um ou outro vaso porque os mesmos de barro e os patins a não fazerem as curvas a tempo... Tudo isto num tempo em que a São do Acácio ainda sem Acácio, solteira, uma jovem de sorriso fácil também lá sentada numa cadeira a descansar um bocadinho das suas tarefas domésticas. Tinha também uma vinha na encosta solarenga do Vale do Sandinho, mandada plantar pelo seu primeiro marido, pessoa muito respeitada na terra e que nunca cheguei a conhecer a não ser só de ouvir falar do seu nome: o sr. António do Casal - do Casal, penso que por ter sido criado no sítio do "Casal", nas imediações da aldeia das Luadas. Actualmente habitado por alguns elementos da comunidade estrangeira da zona. Mas voltando à vinha da prima Olinda, a tal da encosta soalheira e que costumava produzir bastantes cachos de uvas de várias castas das boas, o que lhe conferia um vinho de muito boa qualidade e que, na altura das vindimas, costumava mobilizar a maior parte das pessoas da aldeiabque ali acorriam com enorme satisfação, por se tratar, no fundo, de uma verdadeira festa! Eu e a Fernanda, minha vizinha de ao pé da porta, estávamos sempre lá caídas todos os anos. Cabía-nos a árdua tarefa de carregar as cestas e os pusseiros cheios de cachos por aquela encosta toda acima... Não era fácil. Mas no fim, como já disse, era uma festa. Porque um delicioso almoço à nossa espera na sala de jantar, onde, uma mesa elástica a acomodar mais de uma dezena de pessoas. E uma terrina de canja a fumegar seguida de uma enorme travessa de jardineira, não esquecendo as belas das filhóses da sobremesa e tudo isso tão bom que me parece ainda estar agora a saber...!!
Cleo
Subscrever:
Mensagens (Atom)
-
Do armário embutido na parede do quarto que era o nosso, ou seja da minha irmã e meu, gritos mudos de instrumentos de cordas laças que há mu...
-
Se fechar os olhos por momentos consigo voltar lá. E volto áquele tempo em que o tempo ainda não contava para nada que fosse mais importante...




