quarta-feira, 13 de março de 2019

E eis que me volto ali,




E eis que me volto ali, ao lugar de sempre, num tempo esquecido, que me escapa pelos becos e vielas escuras da memória... Rostos embaciados a segurarem um instante irrepetível. Eu de antes no mesmo sítio de agora, mas diferente, porque antes tudo aquilo também diferente e cheio de tudo o que já não existe agora. Dos que ali estavam já ninguém a aparecer, a subir ou a descer a rua. Já ninguém a sentar-se nas pedras do muro nem a conversar. Nenhuma canalha a brincar na neve inesperada de um Janeiro qualquer... Ninguém a chegar para ajudar à matança do porco, porque nenhum porco no curral. As casas estão caladas e já ninguém a abrir a porta para entrar ou sair. As chaminés sem fumo e nenhuma mulher a chegar com uma cesta ou um molho de qualquer coisa à cabeça. A rua emudeceu e, portanto, tudo diferente agora.

Cleo

terça-feira, 12 de março de 2019

Algures, num qualquer dia


Algures, num qualquer dia assinalado numa folha de calendário antigo, perdido num canto escuro de uma casa ao abandono, mas onde perduram as memórias de um tempo que já foi cheio! Na madrugada ainda escura, um homem caminha com uma pequena pela mão, por causa de uma consulta dos olhos no hospital da vila de Arganil.
Foram por um atalho, visto que a camioneta, essa, não passava da Benfeita e partia às sete horas da manhã, em ponto. Até lá, ainda um bom pedaço a palmilhar o carreiro. Além disso, o bilhete também custava dinheiro, daquele que pouco havia e para não dar em perna quebrada por causa de um qualquer contratempo, o melhor seria deitar os pés ao caminho. De maneira que, de casa até à "lomba", pelo carreiro acima, era um salto, como se costumava dizer. Não o era, porque o mesmo a subir a pique, de modo que, impossível de saltar... O pior era depois, a interminável estrada de terra batida que atravessava a serra toda até ao cimo da Esculca e ainda faltava passar pelo Alqueve e pelo Mosteiro. Depois, Folques ali logo ao virar da curva, mesmo quase, quase, lá ao pé...
Deveria ser Verão, porque a poeira a entrar-lhe pelo picotado dos sapatos de fivela ao lado, a tingir-lhe de castanho as meias brancas de sair. Mas isso era o menos. O pior eram os pés a queixarem-se dos tornozelos e os tornozelos a fingirem que não era nada com eles. Mas tenho cá p'ra mim, que a culpa seria mesmo dos sapatos, porque os pés um bocadinho desconfortáveis apesar dos sapatos maiores do que os pés mas com um tufozito de papel macio na biqueira, por causa de durarem mais tempo, visto os pés sempre a crescerem e os sapatos na mesma...
Já havia amanhecido entrementes, mas o caminho ainda a meio e as horas da consulta a chegarem-se. Era preciso apressar o passo, visto que o especialista que vinha de Coimbra, não costuma esperar por ninguém. "Pai, ainda falta muito?" - Pergunta a pequena já fatigada. "Não. Não vês que já andamos a maior parte? Daqui até lá é um salto!" - Responde-lhe o pai, tentando apaziguar-lhe o desânimo. Caminhavam já no asfalto, mas, ainda assim, muito longe do destino que os ali levava.

Cleo

segunda-feira, 11 de março de 2019

Tenho fome dos sorrisos de sol



Tenho fome dos sorrisos de sol a iluminarem-me a brancura da pele. E da preguiça do vento, a agitar a folhagem ao lusco-fusco de um fim de Junho quente qualquer, embalando os afazeres esvoaçantes dos pássaros antes do recolher. Das falaças e gargalhadas das gentes, que, de ferramentas ao ombro, e cestas à cabeça com coisas lá dentro e ainda um cestito pequeno pendurado pelo aro no braço, enchiam os caminhos por entre pinhais e veredas a cheirarem a erva fresca. Da embriagante lânguidez do entardecer, espraiando-se sob os campos de trigo doirado, quase maduro. Dos dias cálidos a prometerem sinfonias de grilos de cigarras, de ralos e de rãs, noites adentro... Tenho saudades do bailado ondulante das magníficas e belas borboletas da Primavera da minha infância, beijando todas as flores. Tenho ainda saudades, do verde fluorscente dos luzicus por entre as pedras e ervas na parede do meu quintal. Dos lírios que enfeitavam o jardim abandonado, em frente à casa alta da prima Augusta, na mesma rua onde também morava a minha avó e, em cujo telhado baixinho e de lajes quentes, me sentava junto dela e me demorava a ouvir as suas histórias de encantar, que me contava por entre costuras de dedal e agulhas difíceis de enfiar. Lembro-me das dálias rubras sem canteiro, nascidas da terra, junto ao corrimão das videiras ao cimo do quintal. Das tangerinas que salpicavam o chão em volta da tangerineira. Metade dentro e a outra metade caidas na estrada... E das outras que colhíamos com a escada da azeitona, para dentro dum cesto. Dos abrunhos de frança a pingarem de mel visto que abelhas gulosas a poisarem-lhes em cima. Tenho saudades da bilha de barro onde se guardava a água fresca que nos matava a sede quando longe das nascentes. Mas também dos refrescos de groselha que se faziam para as mulheres à merenda, quando estas apareciam para nos ajudar a arrancar as batatas e um calor que não se podia...! E saudades ainda, dos enfeites para a festa que se fizeram naquele ano longínquo - que retornaria após anos de ausência - à sombra da hora da sesta, junto à casa da prima Lucinda - a grande entusiasta da sua feitura - e que depois se guardavam na sua loja até ao dia de enfeitar as ruas. Centenas de metros de bandeirinhas coladas em fio de chouriças e ainda alguns candeeiros mais elaborados que haveriam de pender do tecto do largo da capela, onde a festa e o bailarico até de madrugada. E, claro, de todas as outras festas que se lhe seguiram, porque os primeiros foguetes morteiros a anunciarem a alvorada, para que as outras terras vizinhas soubessem!... E, portanto, a música da aparelhagem a tocar logo de manhã e o cheirinho da carne fresca a inundar as ruas onde casas com muitas pessoas a falarem, a entrarem e a saírem... Da missa e da procissão com a banda a tocar nas suas cornetas e as pandeiretas a marcarem o passo. Acabada a procissão ainda se leiloavam as ofertas e só depois o almoço farto, onde, em cada casa mais um ou dois lugares à mesa para os da filarmónica, visto ainda terem de tocar umas modas da parte da tarde e a fraqueza a tomar conta do corpo derivado ao avanço da hora... À noite, a animação das falaças e dos risos, do largo cheio de gente à espera do conjunto que haveria de animar o arraial. Tenho saudades disto tudo e não serei só eu!...

Cleo

quinta-feira, 7 de março de 2019

Tinha na curva dos anos


Tinha na curva dos anos uma espondilite incorporada que a obrigava a caminhar de nariz rasteiro ao chão, impedindo-a assim de contemplar o céu e tudo o resto que existia acima do horizonte rastejante ao qual os seus olhos estavam confinados. Limitando-se unicamente às raízes e às pedras do caminho por onde caminhava sempre sem ver ninguém. Ainda que, a dois passos de si, alguém consigo se cruzasse. Se lhe falassem, respondia prontamente com o cumprimento do costume: um "bom dia" ou uma "boa tarde" logo seguido da pergunta que se impunha: "quem está aí?" Se fosse alguém conhecido, ainda fazia um esforço doloroso e erguia-se o mais que podia numa tentativa vã de encontrar o rosto de quem do alto lhe falava, se não fosse, poupava-se ao esforço desnecessário e seguia adiante. A capucha pela cabeça, aparava-lhe a chuva e o vento que no Inverno a não impediam dos cuidados que tinha. Do sol de Verão, sentia-lhe o calor que lhe queimava a pele dos braços cansados até onde chegavam as mangas arregaçadas e, a luminosidade espelhada no alcatrão da estrada, que, por vezes, também tomava. E lá seguia a caminho da vida que lhe fugia...

Cleo

De volta ao meu mundo secreto



De volta ao meu mundo secreto onde as memórias se misturam com as imagens de agora, vou rabiscando desenhos de palavras com o que me vai aflorando ao pensamento. E escrevo como se a minha vida dependesse disso. Se fosse poeta, diria que escrevo com a alma em chamas. Porque o faço inspirada em modelos vivos que fazem ou fizeram, em alguma época, parte da minha existência. De maneira que,tenho esta mania de me voltar para o passado e tentar arrancar lá do fundo os pedaços que se me colaram às paredes do meu poço das lembranças. Coisas sem importância pensarão alguns, mas cheias de significado para mim. Ainda mais por saber que mais ninguém se importará com elas e se não forem resgatadas a tempo, acabarão por se desfazer no esquecimento, como tantas outras das quais já não resta nem um simples vislumbre. Apagaram-se como uma lâmpada que se funde! Hoje rabisquei um quadro a carvão, onde um rapaz descalço corre pela rua abaixo, feliz, atrás de um pneu de bicicleta segurando-o com uma gancheta de arame grosso. O rapaz não sabe que é a estrela do meu desenho, nem nunca o virá a saber visto que não viveu o tempo suficiente para que lhe pudesse contar. Mas lá vai ele, feliz por ser apenas uma criança presa num corpo de um quase adulto onde nunca se reconheceu. E continua a correr, livre, atrás do pneu de gancheta em punho. Sempre que lá vou, encontro-o por ali a assobiar... Não é que o veja realmente, mas sinto-o e quase que lhe consigo tocar no espírito, apenas com a força do meu pensamento.

Cleo

Num tempo em que tanto se fala de pobreza e caridade





Num tempo em que tanto se fala de pobreza e caridade, desigualdade e injustiça social, não posso deixar de me lembrar de uma história que o meu pai costumava contar algumas vezes, sempre que o tema vinha à baila e por ali havia gente com fartura, que não se importava nada de ouvir as mesmas histórias com o mesmo entusiasmo de sempre e que, estava mais do que visto, que acabaria quase sempre, no final, com umas valentes gargalhadas de todos os ali presentes. Como aquela do homem que certa vez por ali passou e, após ter granjeado alguma coisa de comer e beber, no fim se vira para o meu pai com um ar muito sério e, por ter visto a sua arte e engenho no fazer, bem como, a perfeição do seu trabalho em algumas peças de mobiliário, lhe pede uma tábua e um prego para levar consigo por via de, quando chegasse à sua terra, a pregar lá numa porta a ver o que é que aquilo dava... Mas esta não era uma história dessas. Esta era uma história mais séria e que não motivava gargalhadas mas antes silêncio e reflexão. Passo então a relatar a dita história: Parece que já o sol ía alto quando o pobre homem se assomou á soleira da porta da oficina que estava sempre aberta e, num gesto humilde, perguntou se podia entrar. Depois de dar a salvação com um tímido "Bom dia", passou de imediato ao que ali o trazia... - Ó senhor, não tem por aí alguma coisinha que não lhe faça falta e que me possa dar? - O seu olhar era tão penoso e suplicante, que não haveria ninguém que perante tal, não se comovesse. Vestido de trapos remendados e os pés descalços, ali estava um pobre desgraçado que, para sobreviver naquele tempo em que não havia reformas mínimas nem dinheiro de espécie alguma a tilintar no fundo do bolso, calcorreava caminhos de terra em terra, a pedir esmola aqui e ali, apelando às almas generosas que dele se enchiam de pena, enquanto afirmava que qualquer coisita lhe servia. Não havia esquisitices. De maneira que, o meu pai disse-lhe que esperasse ali que ele já vinha. E subiu as escadas que davam para o andar de cima, onde foi procurar por algo na cozinha, que pudesse amenizar a fome que a criatura denunciava nos olhos e na magreza do corpo. Além de um prato de sopa de feijão que a minha mãe tinha feito ao almoço e de um pedaço de pão com sardinha frita, trouxe também um par de botas que já não usava por estas lhe terem feito uns malditos calos que o obrigaram a deixá-las de lado, ainda que fossem praticamente novas. - Tome lá isto e coma á vontade - disse-lhe entregando-lhe a sopa e o pão, guardando as botas para depois do homem matar a fome. Após a refeição, estendeu-lhe as botas dizendo: "veja lá se estas botas lhe servem". Os olhos da criatura até marejaram de tanta alegria ao verem as botas. Nunca tal imaginou, quando ali chegou e apenas pediu algo que lhe aconchegasse o estômago vazio! Pegou nas botas e começou a tentar calça-las. Ora puxava de um lado ora do outro e o raio das botas não havia maneira de entrarem. Mas que raio de azar! - Parece que não querem entrar. não lhe servem. - Servem servem meu senhor, eu é que tenho os pés inchados!... De maneira que, agradeceu muito tudo o que o meu pai lhe havia dado e lá foi com o estômago composto, botas ao ombro e os pés descalços... É claro que as botas não lhe serviam, nem quando os pés desinchassem... Mas eram suas aquelas botas e ai de quem lhe as quisesse tirar!

Cleo



Trazia nas mãos enrugadas que às vezes escondia nos bolsos do avental negro, a aspereza dos calos de uma vida inteira. Não era o caso, em virtude da lenha para a fogueira onde a panela de ferro já a esperava. Pela cabeça, a capucha de lã escura em cuja aba se resguardava do vento cortante de janeiros antigos. Nos pés, as tamancas de pau íam mastigando a cada passo o gêlo que emergira do chão à força. Nos olhos de mar que nunca viu, saltavam-lhe alegrias difíceis de compreender visto que do mundo só conhecia aquela terra que a viu nascer e toda a dureza que sempre acatou sem se questionar, sem um reclamo que se fizesse ouvir. Fiquei ali a vê-la desaparecer no meio da neblina, como um fantasma que tal como apareceu, se diluiu sem deixar rasto. Pouco depois anoiteceu e o silêncio engoliu a aldeia por completo. Só o cheiro a lume vindo dos telhados e um clarão ou outro por dentro dos vidros de janelas baças.

Cleo

Naquele tempo, ainda não havia carrinhas



Naquele tempo, ainda não havia carrinhas que nos fossem buscar e trazer a casa, de modo que, ía-se a pé pelos carreiros abaixo até à Benfeita e depois subia-se a ladeira toda até ao cimo de tudo a caminho da escola que estava sentada no alto do outeiro, virada de frente para o Pai das Donas. Passava-se à porta dos irmãos sapateiros, sempre na sua faina a coser cabedal e a colar palmilhas, a martelar e a remendar meias-solas de botas que chegavam a ir lá parar por mais de duas ou três vezes antes de ficarem sem préstimo algum. O cheiro a cabedal e a cola espalhava-se pela rua e só na curva da casa dos irmãos"malucos" é que deixava de se sentir. Chamavam-lhe malucos por não serem muito sociáveis e passarem a vida em casa, onde por vezes se assomavam a uma das janelas altas a ver quem passava na calçada. Em tempos viviam com a mãe, mas desde que ela morrera que passaram a viver sozinhos. Pouco mais se sabia daquelas estranhas criaturas. Um pouco mais acima, lá estava o papagaio da dona Ilda a dizer-nos "Olá!" ou então outras coisas menos dignas que a rapaziada lhe costumava ensinar... Lá mais ao cimo da rua íngreme, outro "fantasma" debruçado na antiga janela de correr ao meio e para cima, com muitos quadrados de vidrinhos, atento ao movimento da canalha que por ali passava àquela hora. Antunes, penso que era assim que se chamava o velhinho de forte bigodaça já fora de moda. A Leninha ainda nova mas que parecia muito mais velha derivado à grossura dos seus óculos míopes, mais duas ou três vizinhas conversavam entre esquinas e o barbeiro preparava-se para fazer a sua volta costumeira, de pasta na mão e boina espanhola enterrada na cabeça até às orelhas. Talvez fosse até às Luadas ou aos Pardieiros, se calhar à Dreia, onde tinha a clientela de guedelhas grandes à sua espera. De quando em vez, lá vinha o João de rojos(antes do carrinho de rolamentos feito de uma caixa de sardinha, que os amigos lhe arranjaram). Ele bem falava, falava... mas eram quase imperceptíveis as suas palavras. Nada que o impedisse de ir a todas as festas das aldeias vizinhas e por lá ficar até a festa acabar e alguma boa alma se compadecer e lhe improvisar um canto qualquer para pernoitar. Por vezes passavam-se dias até aparecer alguma camioneta que lhe desse uma boleia de volta até à Benfeita. Mas penso que era feliz assim(sempre a rir). E ao cimo de tudo, finalmente a escola onde a miudagem se juntava toda, cada qual das suas terras e muitos da Benfeita. Menos os dos Pardieiros, que esses tinham a sua própria escola. Lembro-me do arroz de atum e da sopa que a Ti Nazaré nos fazia para o almoço e do leite em pó que demorava a "descaroçar" naquela panela tão grande. Isto já a partir da segunda classe, porque na primeira, ainda era preciso levar a marmita das batatas fritas com omeleta ou o que demais as nossas mães lá tivessem para nos mandar. Lembro-me também daquela menina que era filha de um resineiro e que, por serem tão pobres, a marmita dela era um púcaro da resina, daqueles pretos de plástico...

Cleo

Coisas que nos fazem viajar no tempo


Coisas que nos fazem viajar no tempo e voltar aos lugares onde pertencemos e onde vivem as nossas memórias de outras vidas... As tamancas nos pés da minha avó, que, em passitos curtos e ligeiros, caminhavam sobre os penedos lisos da calçada, antes das escadas de cimento que vieram depois. A panela de ferro com tantas estórias guardadas, contadas à mesma lareira onde fervia o caldo das couves. O saquito de pano, onde se guardavam os feijões, o grão de bico, a broa... Os tamancos com atacadores de guita - o mesmo material que me lembro de ver a servir de cinto nas calças do meu avô - era o calçado dos homens mais afortunados, porque os outros andariam descalços... O garrafão de palha onde se levava o vinho para alegrar as sementeiras e empurrar a bucha. O candeeiro que alumiava a noite quando o dia se acabava. Os serões a debulhar o milho ou os feijões, alegrados pelas cantigas ou as estórias de bruxas e lobisomens, que havia sempre na boca de alguém com jeito para as contar e nos encantar. Tudo isso se foi, mas ficaram os objectos, calados, gritando tudo isto em silêncios sepulcrais...!

Cleo

Tudo servia para enfeitar o ramo




Tudo servia para enfeitar o ramo de loureiro que a missa deste dia pedia, visto ser o tão aguardado Domingo de Ramos. De maneira que, à falta de outras coisas, hipoteticamente mais vistosas, que se supunha existirem noutros lados mas que ali não tínhamos, deitava-se a mão ao que havia. E o que havia eram camélias, rubras ou cor-de-rosa, que se prendiam aos galhos do ramo com um pedacito de fio das chouriças, que se encondia no meio das folhas. Umas serpentinas coloridas que sobravam do carnaval, enroladas em toda a volta e umas tangerinas(que tínhamos com fartura), penduradas aqui e ali, a abanarem para cá e para lá, conforme os solavancos que se davam no caminho, pinhal abaixo, entre tropeços de raízes e escorregadelas de solas lisas na caruma ou nas folhas apodrecidas dos castanheiros. Chegados ao adro da igreja da Benfeita, os olhos a brilharem num misto de alegria e orgulho pelo ramo que se exibia. Cada um de nós e todos os outros que já lá estavam, mais os que ainda chegavam de todas as outras terras da freguesia. Uma exaltação de alegria que se não conseguia explicar, cada um aprumando o melhor que podia, o seu ramo!... E havia ainda, dois ou três, que, movidos pela extravagância de dar ainda mais nas vistas, carregavam um loureiro inteiro até à porta da igreja, não se atrevendo no entanto, a passar da soleira da porta da igreja...

Cleo

Naquele tempo não havia Natal




Naquele tempo não havia Natal na nossa casa. Sabíamos que era Natal, porque o calendário pendurado na parede do fundo da escada o anunciava com o 25 a vermelho. Depois era só esperar pelas vésperas, altura em que a nossa excitação crescia com a expectativa da chegada dos meus padrinhos com os filhos - os nossos companheiros das brincadeiras das férias grandes - cujos avós os esperavam fervendo em ânsias de saudades. Moravam ali mesmo, na casa ao lado da nossa. De maneira que, sempre que roncava um carro pela rua acima, precipitáva-mo-nos de imediato para a janela a confirmar a tão desejada vinda. Depois... bem, depois era o reboliço das vozes, dos abraços e dos beijinhos. - Então compadre, como é que isso vai? - E a comadre, vai melhorzinha? - Para nós, era como se fossem da nossa família. Pelo menos era assim que o sentíamos, como se fossem nossos também! O ritual de descarregar o carro onde malas, caixotes e sacos se erguiam numa revoada de alegria. No dia seguinte, logo de manhãzinha, o caminho do pinhal era o mais certo dos caminhos, por causa de escolher um pinheiro jeitoso onde fitas douradas e vermelhas, bolas de prata e de ouro se encavalitavam nos ramos vestidos de luzinhas a piscar e neve que parecia farinha polvilhando de branco o verde da caruma. E ali ficava, majestosamente a acoitar um presépio onde figurinhas de barro se enterravam no musgo fresco e húmido da chuva. De modo que, o nosso Natal se resumia a todo aquele ininterrupto piscar colorido que observávamos cá de baixo (por vezes empoleiradas em cima do muro para ficar mais perto) através dos vidros embaciados da marquise e que nos encantava até à alma, mesmo sabendo que era só dos outros... Depois, voltávamos para casa onde umas filhós acabadas de fazer, uma caneca de chá de limão a ferver e uma fatia de bolo-rei a cada um, a prometer-nos a sorte do brinde ou o azar da fava. Nesse tempo nem sequer se ouvia falar do Pai Natal. Diziam que era o Menino- Jesus quem dava as prendas... eu só fui contemplada numa ocasião, quando, ao acordar no dia de Natal, reparei que ali, mesmo ao lado da minha almofada, havia nascido um regadorzito azul, de plástico . De repente, uma onda de felicidade a invadir-me por dentro!
Não me lembro de que alguma vez tenha regado o que quer que fosse com ele.

Cleo