terça-feira, 6 de junho de 2023



Do outro lado do tempo, há rostos que não se apagam a viverem em sítios nossos, que, para nós, permanecem intocáveis.

Se fecharmos os olhos, conseguimos vê-los a sorrirem-nos enquanto por eles passamos ao sabor das imagens que nos vão surgindo da cassete onde os guardámos. Porque presos a memórais a inundarem-nos os lugares onde sempre estavam, de momentos imortais a segurarem-se ao tempo que conseguimos manter em suspenso, como este que agora me aflora ao pensamento. E de repente, ali está ela, sentada naquela soleira, a ajeitar o lenço que lhe descaíra da cabeça, enquanto descansa do molho de mato que ali a trouxera...

Apalpa a travessa que lhe segura o carrapito e penteia os cabelos da frente que se esgueiraram antes de voltar a pôr o lenço como deve ser.

São instantes imorríveis, a vaguearem ao sabor do pensamento e revividos vezes e vezes sem conta. Mas que, por precaução e para que continuem vivos enquanto nós também vivermos, o melhor é deitá-los ao papel em palavras antes que o tempo resolva apagá-los...


Cleo 


Foto - Duas irmãs(algures ali entre a segunda metade dos anos 40 e a primeira dos anos 50), uma delas com o seu bebé ao colo (chamava-se Vítor - já falecido também), num tempo muito anterior ao das minhas lembranças, mas cuja soleira da porta a servir de palco a ambos os instantes, tanto o da foto como o que descrevi no texto. 🙃😍




 

quinta-feira, 1 de junho de 2023


 Nunca tive grandes brinquedos e a minha irmã também não. No entanto nada nos impedia de ir para a rua e chapinhar à vontade nas poças da água deixadas pela chuva. Lembro-me de uma vez estar a chover uma daquelas chuvas certinhas, sem vento nenhum e que molham a valer, e num repente, ir a correr até à rua porque me apeteceu apanhar uma molha. Assim, só porque sim! E o que senti é absolutamente indizível... A sensação de se estar molhado até aos ossos por prazer, não tem forma de se descrever.

Também costumava ir até à "Eira Cabeça" só para poder andar a correr à volta da eira de cimento onde se malhava o centeio, que, para mim, era o mais parecido com o terraço que não tinha. Não assim tão largo como aquele, onde os meus amigos de Lisboa costumavam até andar com os seus triciclos e bicicletas. Eu, como não tinha, corria em toda a volta até me cansar ou a cabeça me começar a andar à roda e me entontecer. Sentava-me até passar e voltava ao início. Não me vinha embora sem ir assustar os gafanhotos bebés que estavam ali mesmo ao lado, nas ervas secas e nos restos de palhas como se aquilo fosse uma creche de gafanhotos. Assim que me chegasse ao pé e batesse as palmas, era uma chuva deles a saltarem de um lado para o outro, aflitos de medo...
Na volta, parava junto aos currais onde antes havia uma cerejeira preta enorme e punha-me a dizer uma palavra qualquer para lhe ouvir o eco que fazia na parede da garagem do Custódio. De maneira que lá tinha de dizer aquela ladaínha que tanto adorava ouvir de volta - "Ó que eco que aqui há! Que eco é? É o eco que há cá. O quê, há eco aqui? Há cá eco há!" - Que coisa aquela, tão boa! E seguia o caminho a correr despreocupada e de coração cheio.
E se isto não é felicidade, então não sei o que esta poderá ser. Deve ser por isso que, quando digo que tive uma infância feliz, é porque estas pequenas coisas se sobrepõem a outras menos boas, mas que reportando à época, era o normal do viver de então. Todas as crianças da aldeia eram do mesmo nível de abastança e uns mais castigados do que outros, ou porque eram obrigados a trabalhar mais para ajudar em casa, ou porque não tinham liberdade para poder simplesmente ir brincar com os outros na rua quando lhes apetecia, a sorte não era desigual porque se equilibrava entre umas e outras coisas de maior ou menor importância para cada um de nós.
Já outros, noutra época mais distante e que tiveram inícios de vida bem diferentes porque de famílias com certas posses e outras importâncias como se pode ver no retrato destes irmãos, mas que histórias contadas em surdina, a lembrarem da desgraça que lhes haveria de trocar as voltas e a terem de passar a viver como os outros. A terem vidas de escravatura por via do cultivo das terras por conta deles próprios, de ferramentas em punho e calos nas mãos àperas porque a barriga a não se compadecer, e de modo que a ter de se comer todos os dias.
E estes a parecer-me que não foram felizes, tirando uma que não aparece no retrato... Essa sim, apesar das limitações, nunca se importou com a "boca do povo" e julgo que soube ser feliz enquanto pôde.

Cleo

Foto - Lídia e Leopoldino, dois irmãos que paecem dois príncipes 😍
Todas a

terça-feira, 30 de maio de 2023


Se ao tempo eu perguntasse
De quanto iria precisar
Para um bilhete poder comprar
Que àquele tempo me levasse
Daria toda a minha fortuna
Para àquele instante voltar
Voltar a ser esta pequena
Com a inocência no olhar
Quanto valerá uma viagem
Que só o tempo pode dar?
Não me faltaria a coragem
De nas suas asas voar!
O cão de contente a ladrar
E o primo Campos a falar
O Paulo ao pé de mim a olhar
E o lugar já lá tão longe de se chegar...

Cleo

Foto. Uma cena de um dia invulgar, porque não era todos os dias que ali os encontrava, os que ali estão... Deveria ser pelo natal , porque o primo Campo
s de casaco de cabedal e mãos nos bolsos. O meu amigo Paulo, de calças de bombazine e eu de camisola de lã por cima do vestido. ☺️

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Do armário embutido na parede do quarto que era o nosso, ou seja da minha irmã e meu, gritos mudos de instrumentos de cordas laças que há muito não viam dedos que as tocassem. Ou que, em minúcias de artista, as afinassem a preceito até que gemessem em crescendo, desde o "Dó" até ao "Si", cada uma das notas sem qualquer rouquidão. De modo que, para ali estavam esquecidos, pendurados em ganchos ferrugentos que lhes denunciavam a idade avançada que já tinham.
Uma grande viola que me disseram mais tarde ser um contrabaixo. Uma viola normal que cheguei a ver o meu pai tocar uma ou duas vezes antes de se lhe ir embora a força e a vontade... Uma guitarra e ainda um banjo que ele mais tarde haveria de vender a um ferro-velho que lhe não largava a porta à cata de tesouros deste e outros calibres como foi o caso do velhinho relógio da sala que cantava às meias e às horas certas.
Tiveram o seu tempo de glórias quando em serões se entretinham a tocar e a fazer ensaios para outras festas tão diferentes das de agora. Sim, porque se faziam festas rijas naquele tempo e até bailaricos de vez em quando. Diz que por alturas do carnaval até se faziam dois, ao despique, na nossa terra. Imagine-se! Ainda há pouco tempo o Acácio que já contou sete décadas, me disse que quando era garoto bem pequeno, andava numa correria povo abaixo e povo acima, a espreitar entre um e outro para levar e trazer informações aos que o mandavam, por via de se ver quem é que tinha o baile melhor, mais concorrido e animado. Isso é que havia gente com fartura na aldeia desses tempos, caramba!
Ou, também, se se desse o caso de simplesmente lhes apetecer estar ali entretidos a gastar o tempo porque nenhum aparelho moderno ainda por inventar, a tratar disso. É o caso destes dois aqui numa destas fotografias do baú lá de casa, onde tio (Tio Firmino) e este outro sobrinho seu chamado Virgílio, que estudava para ser advogado em Lisboa mas que o visitava de vez em quando, dedilham cada um na sua guitarra, sentados em redor da mesa de jantar. Na outra para além de uma viola há também um tocador de concertina, ambos sentados e rodeados de gente que os escuta com alegria e devoção, num qualquer dia de festa, ou então não. Apenas um dia de domingo em que alguém se lembrou de ali fazer acontecer uns instantes de animação, talvez para aliviar da rudeza dos outros dias.
Hoje já lá não mora qualquer instrumento de cordas, mas na minha memória ainda lá estão todos. Continuam intactos e mudos, a atravessarem a eternidade da minha existência...
Cleo



 

quarta-feira, 19 de abril de 2023

 


Na casa da minha avó, para onde costumava ir quando pequena e adorava, havia na salita, para além da mesa com as quatro cadeiras cheias de caruncho e enegrecidas pelo fumo da fogueira que enchia a casa toda sempre que os gravetos ainda verdes ou a lenha molhada, havia também uma cómoda com gavetas empenadas que eu me fartava de puxar nos puxadores redondos também de madeira, mas elas a não quererem abrir-se. E, portanto, como a minha força não permitia mais do que uma pequena fresta de um dos lados apesar dos muitos safanões investidos, porque o outro pregado e sem se mover um milímetro! Era pois, por ali que eu espreitava lá para dentro e pescava um ou outro tesouro que ela ali tinha escondido, na escuridão daquele lugar onde coisas esquecidas e difíceis de encontrar... Com a minha pequenita mão lá metida mas sem a poder mover, era com a ponta dos dedos contra a madeira e fazendo com que deslizassem até lhes ver uma ponta e depois a puxar para fora.

Algumas, eram as cartas que o meu pai lhe enviara dez anos antes, de quando trabalhava e morava em Lisboa. Amarelecidas, ainda com selos e carimbos por cima. As letras, desenhadas, não as sabia ler ainda mas a minha avó, analfabeta, já as tinha dado a ler a quem sabia e até pedido à mesma pessoa para lhes responder, cada uma por sua vez, muito antes de as guardar naquele jazigo empenado. Notícias da época a darem conta das preocupações de então.

Uma criança que existia e que não aparecia para ver a avó apesar desta cheia de saudades... Uma ovelha que estaria doente e a não comer nada, E até as oliveiras a prometerem pouco azeite naquele ano... Coisas banais, portanto, talvez até de somenos importância só para encherem o papel. Sei porque as li mais tarde, quando já havia aprendido a juntar as letras com a professora Fernanda na escola da Benfeita.

Cleo

quinta-feira, 6 de abril de 2023



Se fechar os olhos por momentos consigo voltar lá. E volto áquele tempo em que o tempo ainda não contava para nada que fosse mais importante do que a hora em que davam os desenhos animados na televisão que era e foi a preto e branco e que por aquelas alturas estava em cima da cómoda do quarto deles e que eu costumava ver sentada aos pés da cama. Isto por causa de ser curta de vista e não conseguir ler as legendas sem ser ao perto e que estava sempre a ouvir que era um vício...
E lá está a minha mãe na "casa de lá" (assim se chamava porque embora fosse de paredes meias com a de cá, em tempos nem porta por dentro tinha e era preciso ir pelo lado de fora o que era uma chatice se calhasse estar a chover e a ser preciso ir à adega encher a garrafita do vinho pró almoço ou a ter de passar pelo pátio para se entrar na parte de cima. De maneira que, já muito mais tarde, o quarto da minha avó a deixar de existir e ali se fazer a lareira e, claro, se terem mudado para lá os sofás da sala) em dia de se cozer a broa, a peneirar a farinha de milho com a tampa da arca aberta, numa rapidez de solavancos curtos, para lá e para cá, enquanto uma chuva de farinha a cair no castanho da  gamela de amassar a broa. E nesse tempo o forno já construído no lugar onde antes tinha sido a retrete e da qual ainda me lembro tão bem porque numa dor de barriga a ter de me sentar naquele assustador buraco redondo ao qual se retirava uma rodela de madeira que o cobria de dignidade.


 

quarta-feira, 5 de abril de 2023


Por alturas da Páscoa para além das coisitas do costume que se traziam da mercearia do Ti Adelino ali à "poça" ou da de lá da rua do fundo, a do Ti Cruz, uma massita, um cartuxozito com duzentas e cinquenta gramas de café de cevada mais outro igual de açúcar amarelo(embolaricado), uma ou duas caixitas de fósforos para acender o lume, meio litro de petróleo para prevenir o candeeiro porque a electricidade a não se aguentar em noites de tempestade e, por vezes, a parecer inverno e a gente já na Páscoa, vinha ainda uma barra de sabão amarelo porque a não tardar nada e a ser Domingo de Páscoa. E, como é sabido, no Domingo de Páscoa a ter de se abrir a porta ao padre e a toda aquela comitiva que se fazia anunciar com uma sineta. E esta a tocar cada vez mais perto à medida que iam entrando e saindo das casas e se iam aproximando da nossa, em virtude da cruz do Senhor a carecer de ser beijada por toda a gente, bem como as casas a necessitarem de serem benzidas visto que todas naquele dia num brinco... 
Para além, é claro, da oferta do folar ao padre em cima da toalhita de renda na mesa, ao pé da jarrinha de crisântemos e hortenses, porque assim tudo a parecer tão bem! 
De modo que, uma nota de cem(ou seria de quinhentos?) dentro de um pires, um queijito de ovelha (que era de imediato arrecadado no cesto trazido para o efeito) e, uns quantos cálices junto da garrafa de vidro trabalhado e com tampa igualmente de vidro, que continha aguardente no interior ou que também poderia ser licor de ginja, que se consumiam na hora acabando com um "Ah!..." de satisfação no fim.
Portanto, antes disto tudo ainda era preciso lavar a casa como devia ser e daí o sabão amarelo a ser tão precioso, porque mais nada a deixar o soalho amarelinho como ele. 
O sobrado de tábuas corridas, no caso de estar encerado, a ter de se esfregar todo primeiro com o esfregão de arame grosso e só depois a passar-lhe o pano encharcado e a seguir o sabão, a ensaboar em círculos com a escova de piassaba e a força dos braços e outra vez o pano encharcado a fazer desaparecer o sujo e a deixar um cheirinho a lavado por toda a casa. Quartos, sala, corredor e escadas. Tudo de joelhos no chão como que a cumprir uma penitência. Depois era só voltar a espalhar cera daquela que vinha em pacotes cor de laranja, esperar que secasse para lhe dar o lustro e, tudo outra vez numa penitência de joelhos doridos... Mas, em certos casos em que não havia qualquer torneira em casa, ainda a ser preciso ir buscar a água primeiro, em bilhas de barro ou cântaras de zinco, que, mais tarde, já eram só cântaros azuis de plástico, muito mais leves de trazer à cabeça empoleirados nas rodilhas das mulheres.

Cleo


 

segunda-feira, 3 de abril de 2023


Tudo servia para enfeitar o ramo de loureiro que a missa do Domingo de
Ramos pedia. As camélias encarnadas, cuidadosamente presas, com um fio de atar chouriças por entre as folhas. As serpentinas coloridas que sobravam do carnaval, enroladas em toda a volta e as tangerinas penduradas aqui e
ali, faziam-nos brilhar os olhos de alegria.
Por todo o caminho, pinhal abaixo, até á Benfeita, onde, no adro da igreja, já outros da terra que abalavam primeiro e de todas as outras terras da freguesia, também eles, inchados de orgulho e com os olhos a brilhar de tanta emoção pela beleza da sua obra. Seguravam com ambas as mãos, o mais aprumado que
conseguiam, o seu maravilhoso ramo.
Havia ainda aqueles, que, movidos pelo entusiasmo, gostavam de dar nas vistas e elevavam ao exagero o símbolo da missa do dia (que era também a única a que assistiam durante o ano) De modo que, só dobrando a ponta do loureiro inteiro que exibiam, o conseguiriam enfiar dentro da igreja...! O padre, claro, não achava piada nenhuma.🤩🤣😝


 

terça-feira, 28 de março de 2023


Lembro-me da figueira com dois ou três figos que ninguém comia (talvez por dó ou respeito à sua velhice, não sei) na ponta de um ramo tísico, amarelado de icterícia. Costumava subir por ela acima, para espreitar o que se escondia por detrás do muro alto do outro lado da rua. Um muro que afinal não o era assim tanto como parecia. Mas, é claro, quando somos pequenos, todos os muros nos parecem altos! O muro era assustador visto que, no cimo arredondado, cacos de vidros espetados, me impediam de o tentar saltar até em pensamento...
Um pedaço de terra abandonado, umas flores entristecidas de sede e uma casa caiada de portas e janelas fechadas, com uma varanda a dar para o quintal onde uma macieira bravo-esmolfe gigante a afrontar-lhe as vistas, era tudo o que havia para lá do muro. Duas vezes por ano um casal de meia-idade a chegar num carro de praça. O homem, todo ele suspensórios que lhe seguravam as calças de quando tinha sido gordo e agora um verdadeiro palito. A mulher, uma doçura de pessoa de quem eu gostava imenso e que nos tricotava sapatos de dormir e gorros de lã com uma bolazita na ponta, que nos agasalhavam os pés e a cabeça quando os rigores do inverno apertavam e nos enregelavam até aos ossos.
Abriam o portão que chiava, também ele, certamente, perro do reumático e falta de uso, e desapareciam por detrás do muro.
No dia seguinte começava a faina de duas ou três semanas no amanho dos quintais. O corte das ervas longas e das silvas, o esbordinhar para que as bordas ajetadinhas e a parecerem bem. E tudo aquilo a culminar com a sementeira das batatas que todos os anos se fazia (e que anos mais tarde: vá, vamos lá que isto é uma pressa!.. E já quase noite e nós ali a esconder a semente nos regos, a despejar-lhe o adubo, a puxar o raspão com a enxada e a cavar-lhe a terra para de cima) e que, com sorte, talvez dessem para o adubo… Sem água e cuidados, não há renovo que vingue. De tal modo que, meses mais tarde umas batatitas miúdas a verem a luz do dia.


 

quinta-feira, 23 de março de 2023


 Em dia de missa dominical as pessoas a chegarem de todos os lados, pelos atalhos por meio de pinhais que encurtavam o caminho. E mulheres descalças a passarem os pés pela bica da fonte das moscas antes de calçarem as meias de vidro e os sapatos que levavam num saco de plástico...

Terminada a missa e ouvidos os últimos recados do prior, uma última benzedura e todos a sairem ordeiramente da igreja para dar início às saudações de apertos de mão, abraços ou beijinhos conforme as pessoas e o grau de intimidade entre cada qual. As conversas e as gargalhadas a ecoarem ao longe visto que o adro cheio como um ovo e todos a conviverem pom para as mercearias tendo em vista o desejor breves momentos antes de se esgueirare de se aviarem depressa do que lhes era preciso para toda a semana. E aí a saberem das novidades mais ou menos importantes. Era conforme. De modo que, de vez em quando alguém organizava uma excursão a este ao àquele lugar e assim a notícia a espalhar-se depressa por todas as terras da freguesia.

Certa ocasião, os meus pais decidiram ir também num desses passeios de três dias, organizado de modo a visitar alguns dos mais belos lugares do norte do país. De maneira que, a minha mãe a ter de deixar mato e erva com fartura para os animais e uma vizinha das que não íam na excursão, a fazer o favor de lá ir tratar dos animais de manhã e à noite.

Fez também uma carne assada que cortou em fatias, pasteis de bacalhau e cozeu uma fornada de broa. No resto, para aproveitar o calor das brasas, preparou uma caçoila com um coelho e batatas e deitou-a ao forno a assar bem como um frango que teria de sair corado e ainda um tachito de tigelada para ajudar a compôr o farnel que haveria de dar para os tês dias. Umas azeitonas e um queijo de ovelha curado, rematavam o que faltava. E lá fomos nós, no dia da excursão, todos contentes de madrugada, numa boleia na carrinha do Ti Américo, que nos fez o favor de ir levar à Benfeita, onde já estavam outros felizardos, excitados pela aventura prestes a acontecer, também com as suas cestas do farnel ao lado, prontos para entrarem na camioneta que os levaria a conhecer outras terras e lugares diferentes.


A primeira dessas refeições em modo de piquenique foi num pinhal, em virtude de se aproveitar a sombra dos pinheiros. Estenderam-se mantas de trapos e por cima delas toalhas de mesa, que se foi enchendo de coisas daquelas que já vos tinha dito... Adultos e crianças todos sentados em volta da mesa improvisada e toca a comer que o estômago não se compadece com passeios de fazerem bem à alma!!!...

quarta-feira, 22 de março de 2023



Em 1951, a minha mãe tinha 9 anos de idade e vivia com a sua mãe e irmã na terra onde nascera. Murganheira, uma aldeia da freguesia de Pombeiro da Beira, mesmo ao pé do santuário de Santa Quitéria, que, naquele tempo, seria já bastante concorrido por alturas da festa anual.
Como o berço onde nascera era dos mais pobres que se possam imaginar, foi com essa mesma idade que uma prima a levou consigo para Lisboa, com promessas de uma boa casa, para a qual iria servir e ganhar algum dinheiro para ajudar no sustento do lar. Não sem antes disso, ter de trabalhar para essa prima enquanto a dita casa não aparecia... De modo que, contando-me mais tarde quando se proporcionava em conversa, de uma vez, trazia ela uma bilha de leite à cabeça, pesadíssima para o seu tamanho e fraqueza de corpo, e vindo a descer uma rua cravejada de penedos escorregadios e com tão fraco calçado nos pés, estes lhe desandam de tal modo que não teve como se segurar. Nem a ela nem à bilha, caindo ambas desamparadas e a pés juntos, no chão. E o inevitável a acontecer mesmo na frente dos seus olhos impotentes, ao verem derramar-se o leite que, a manchar de branco os penedos lisos da rua e de negro a sua alma em aflição.
Dado que as desculpas não serviriam para a livrar, ainda haveria de levar uma tareia por se ter deixado cair...
Algum tempo depois e tendo já ao seu cuidado várias tarefas domésticas, ao recolher os pratos da mesa dos senhores no final da refeição, tendo estes comido maçãs à sobremesa porque as cascas a regressarem nos pratos e ela a vê-las ali e uma vontade de comer maçã a crecer-lhe na saliva da boca. Mas como as maçãs a não serem para os dentes das criadas, lavou as cascas e estas a saberem-lhe tão bem como se fossem maçãs inteiras!
Mais tarde, depois de tudo já devidamente arrumado e de ter feito um pedaço de renda para a patroa e outro para o seu enxoval, o cansaço a fazer com que adormecesse na água quente da banheira até acordar com ela já fria, no desconforto do corpo gelado.
Houve casas onde havia também crianças de colo a carecerem de quem lhes desse atenção quando os pais não estavam. De quem lhes mudasse a fralda, que nesse tempo eram de pano e lavadas à mão. De quem lhes desse a papinha na boca e colo quando chorassem...
Ao domingo podia sair e ir dar uma volta com alguma amiga, que geralmente eram colegas que a mesma sorte fizera com que se conhecessem no mercado, onde iam comprar as coisas que cozinhavam nas casas onde serviam. Em certa ocasião até foram à Praia das Maçãs. Embora não tivessem fato de banho, nem vestido nem por vestir, não deixaram de tirar um retrato para mais tarde recordar... Lá estão elas a sorrir de contentes, no areal da praia num dia cheio de sol.
Ou então, optava por passar a tarde do mesmo domingo em casa de alguém conhecido, penso que familiar de não sei quem e onde o destino quis que por ironia ou não, viesse ali a conhecer aquele com quem haveria de construir uma nova vida, longe de patrões e senhores cheios de salamaleques e outros tiques burgueses, onde coubesse também a nossa.
A minha vida dava um romance, dizia-me ela. E dava, de facto.
Fim do primeiro capítulo!
Cleo
Foto - O retrato de que falo no texto, na praia das Maçãs ali pelos primeiros anos da década de sessenta do século passado, sendo que as jovens sentadas na areia seriam a minha mãe(à direita) e a sua amiga e colega de então e cujo nome se perdeu na espuma do tempo...

Cleo



 

segunda-feira, 20 de março de 2023







No tempo em que me criei, havia sempre uma velhinha sentada num banco a um canto da cozinha de qualquer casa onde entrasse. Geralmente com a minha mãe quando íamos a passar na rua e alguém nos chamava por um motivo qualquer, para dar algum recado, para ler uma carta, para levar alguma coisa ou simplesmente para fazer uma visita num domingo à tarde que era quando havia mais vagar...Vestidas de preto porque ou eram viúvas ou estariam de luto por alguém chegado e da família. Um lenço na cabeça a tapar o carrapito preso com ganchos de arame. De avental à frente da saia por causa de a poupar à sujidade, mas também porque a aba do avental a servir para as cascas das ervilhas ou das favas quando era tempo delas, dos feijões louros para a sopa ou dos secos para arrumar na arca. Elas estavam ali sentadas por já não poderem andar, mas ajudavam naquilo que podiam visto que o trabalho chegava para todos e até ainda sobrava em certas alturas do ano. De maneira que as conheci a bem dizer a todas, sentadas num banco mocho, a um canto das cozinhas, se de inverno junto à lareira ou ao fogão de ferro, conforme os casos. A minha avó era uma dessas velhinhas que me lembro de ter conhecido e partilhado consigo belos e inesquecíveis pedaços de tempo, entre gargalhadas e histórias que me contava, no bordo da sua fogueira, junto ao lume que ela tanto gostava de fazer e ver a crepitar  - Ah, que boa fogueirola esta que aqui temos! - E nisto dava uma sonora gargalhada a denunciar a sua alegria contagiante que me levava a sentir o mesmo.A Ti Hermínia igualmente sentada na cozinhazita da sua casa, talvez entretido a descascar alguma coisa, enquanto a nora Esmeralda a tratar do amanho do milho no chão grande da Ribeira e o filho Tonecas, na sua faina de fazer colheres de pau, ali mesmo, por detrás do portão do pátio mesmo em frente da porta de casa.Também me lembro da sua irmã (da qual me não recorda o nome), também ela sentada num banco em frente do fogão a lenha por causa do estupor do frio... enquanto a prima Lucinda, sua filha, a fazer a sopa. E o genro António(o alfaiate como era conhecido) na sua oficina de alfaiate mais o neto Brasílio, numa faina imparável de tesouras, linhas e agulhas. Sempre que ali passava na rua, mesmo por baixo do varandim, lá estava a máquina a trabalhar e a cortar o silêncio da mudez das agulhas e linhas quando cosiam à mão. Aos domingos, ainda o sol tão longe de nascer e eles já a abalarem com a carrinha atacada de coisas que vendiam a quem delas precisava - colchas, cobertores, lençois, toalhas, etc, etc... -  mais os fatos que lhes haviam encomendado, alguns já prontos e outros alinhavados para fazerem as provas, a caminho das aldeias perdidas nos montes e vales da serra. Hoje, a tão badalada Serra do Açôr.Nas Luadas era a mesma coisa. Uma vez a tia Albertina levou-me a conhecer as suas amigas. De modo que, cortámos ali para um becozito por cima da rua onde ela morava e fomos dar com uma mão cheia delas sentadas nas soleiras das suas portas, de pernas estendidas ao sol com os pés descalços... Fizeram-nos uma festa!
Cleo

quinta-feira, 16 de março de 2023



Tal como em tantas outras terras, o Verão a trazer-nos os que vinham de Lisboa e por ali faziam morada por algumas semanas em gozo de férias. Traziam os automóveis cheios de malas e sacos que descarregavam em delírio, numa animação de prisioneiros libertados. As mulheres a tratarem logo das humidades e das rendilhadas teias de aranha que ornamentavam cantos de paredes. Caliças caídas com vassouras enérgicas, arredando móveis e abrindo janelas por causa das poeiras. De maneira que, de pó limpo e chão esfregado e encerado, a parecer logo outra coisa!
A prima Lucinda a trazer também as netas e a Paula e dali a nada o lavadouro cheio de animadas conversas e risadas que eu ouvia do oiteiro, anunciando-me quem tinha chegado.
Da Peneda, chegava-me o recado para lá dar um salto no fim do almoço, que a prima Fernanda tinha mandado dizer. E, claro, findo o almoço lá estava eu a bater-lhe à porta com um cestito de batatas e umas cebolas mais um raminho de salsa que a minha mãe lhe mandava. E ela a dizer - a tua mãe é fantástica, até o miminho da salsa!... - e eu a concordar num aceno de cabeça. E depois de um sem número de perguntas e respostas e umas gargalhadas bem dadas numa euforia de quem enche uma casa de alegria, eu a voltar com uma sacada de roupa e calçado que ela nos tinha trazido e aquilo para nós a ter o mesmo valor como se fosse acabadinho de comprar numa boutique ou na feira de Arganil, que, para mim, era a mesma coisa. Tudo como se fosse novo!
Os rapazes, ávidos de liberdade, a fazerem corridas de bicicletas até ao largo da capela e a voltarem na boleia do balanço, de pedais e de músculos pelo íngreme da ladeira, num só fôlego.
No oiteiro, o rádio do primo Fernando em cantorias infernais de cassetes piratas e a prima Lurdes a ter de falar mais alto para os dela a ouvirem por via de não interromper o Roberto Leal. E nisto o primo Fernando em dificuldades de calos, a vir cumprimentar-nos sem se importar com a cassete que lá ficou aos berros dentro do aparelho.
E o corrupio de gente a querer telefonar em virtude dos telemóveis ainda por inventar. Ali a conviverem na brevidade de uns instantes, que, sem se aperceberem, a valerem por uma vida cheia de vazios...
Cleo
Foto - Dois amigos de infância nas suas bicicletas, ao oiteiro, onde ainda se vê a torre do relógio que era fei
 ta em xisto e que foi entretanto deitada abaixo por questões de segurança, Na nossa aldeia - Pai das Donas (Arganil)



De vez em quando, alguém a chegar com uma carta na mão e a falta de um selo. De maneira que, a solicitarem a compra do mesmo para quando chegasse o Ti Alberto carteiro, ali a seguir ao almoço, para a recolha habitual na caixa de correio presa por dois pregos grossos à parede da nossa casa do lado de fora.
De modo que, o meu pai a largar o que estivesse a fazer naquele instante, que, tanto podia ser pousar a plaina com que estivesse a alisar alguma tábua presa ao torno do banco de trabalho onde se debruçava a cada investida de força na plaina, para cá e para lá numa faina de aparas enroladas que ele de vez em quando tirava com os dedos porque a prenderem-se junto à cunha da lâmina. E deixava que caíssem no chão empurrando-as com os pés para o monte em volta da máquina, onde já um espesso manto de serradura e aparas a denunciarem o intenso trabalho de horas intermináveis e bastante esforço de alguns serões obrigados pelos compromissos... Uma cómoda para os Pardieiros, uma cristaleira para a Benfeita, uma mesa elástica para o Enxudro...
Ou, se se desse o caso de estar a trabalhar com ela, desligar a máquina de serrar barulhenta onde um disco a rodar infernalmente, a queixar-se da dureza da madeira de cada vez que o meu pai ali a chegar-lhe um pedaço riscado a lápis, por onde o disco a passar e a dividi-la ao meio.
De maneira que ele a largar tudo isso para ir à gaveta do móvel que fez para substituir a secretária que tivera de vender ao senhor dos Cepos que costumava lá ir contar a luz e a quem ardera a casa e o que lá havia dentro, num incêndio medonho ocorrido por aqueles anos. Um selo ou dois até ao valor que era preciso e a carta a ir pela ranhura da caixa encarnada e o meu pai a guardar as moedas na gaveta e a fechá-la à chave outra vez e a voltar ao trabalho até vir outra pessoa qualquer com outra carta por selar ou um qualquer telefonema importante ou não, porque o telefone ali também ao lado e público. Um contador de impulsos instalado junto ao interruptor da luz fluorscente do tecto da oficina a deitar números a espaços de tempo e no fim a ter de se fazerem contas de multiplicar, a maior parte das vezes a fazê-las de cabeça perante a minha admiração porque a sentir-me incapaz...
Cleo




O marceneiro, á porta da sua oficina, a serrar uma tábua para aplicar na cama que está a fazer, porque a cabeceira já pronta e encostada à parede. A fazer-lhe companhia e a julgar. pelo que, décadas depois, acontecia com o sobrinho que lhe seguiu as pisadas, no interior da mesma oficina, os amigos do costume para dois dedos de conversa... Na janela de sacada, a dar fé do que se passa, a sua mulher, numa pausa das lides da casa.
O artista e a mulher, eram os donos da casa onde me criei, tios do meu pai, a quem criaram como filho, ensinaram a ser gente e lhe deixaram também a magra "fortuna"... Firmino e Guilhermina, dois nomes que me encheram a infância ainda que já lá não os encontrasse. Quer dizer, à tia Guilhermina ainda cheguei a conhecer e era capaz de jurar que me lembro ainda do aconchego do seu colo, para onde costumava ir, dado que a minha mãe sem vagar..
Em espírito, ainda hoje por lá permanecem os dois, a tomarem conta dela na nossa ausência...
Foto - Talvez dos anos 20/30 do século passado. *A casa onde me criei com o seu aspecto original. Construída pelo casal que mencionei no texto, cujas pedras ambos acartaram às costas! *


 


É como quem folheia um jornal antigo, encontrado por acaso numa prateleira de um psiché esquecido num quarto, que, desde o último ali falecido, não mais ninguém a usar a cama nem o guarda-fatos, nem o bacio guardado do lado de dentro da portinhola da mesa de cabeceira em cujo tampo, um despertador de corda com números luminosos ao pé de uma senhora de cabelo arranjado e a sorrir dentro de uma moldura, em cima de um naperon beje, de rosetas com linha fina.
De maneira que, abre-se o jornal, com notícias de há meio século atrás e, a acompanhar um texto mais ou menos longo, uma fotografia igual a esta, só que muito mais baça do que esta porque afinal a tinta já com tantos anos.
E também, quem sabe, talvez derivado ao desgaste do esquecimento disto tudo...


 




Eram tempos difíceis. Tão difíceis e miseráveis, que o próprio tempo se encarregou de trancar a sete chaves nos calabouços do esquecimento, para que, dele, não mais se ouvisse falar. Contudo, não havia como calar as memórias dos que dele sabiam. E o que sabiam, não era pouco!
Naquele tempo Lisboa ficava a 18 dias bem contados, palmilhados de tamancos ao ombro. Isto pelas contas de um primo da minha avó Ermelinda que vivia na Panasqueira e que tinha os olhos da mesma cor dos dela que eram azuis claros, da cor do mar em dias de sol.
Duas ou três casas viradas para as Luadas e umas quantas calhadas a verdejarem, era tudo o que ali havia. Trabalho, era o do dia fora do costume. Ou seja, de ancinho na mão a cavar terra o dia todo. Desde antes de o sol nascer até já depois deste se ter posto, enquanto desse para ver alguma coisa. E o ganho, esse, mal dava para as sardinhas e o cigarrito, que, de vez em quando a tirar da algibeira e a enrolar entre os dedos por causa de matar o vício...
Terá sido por isso que ele e o meu avô, igualmente pelos mesmos motivos, terão combinado e resolvido meterem os pés ao caminho até à cidade grande, em busca de um dinheirito melhor.
Dado que os automóveis eram coisa de ricos e o custo do bilhete do comboio ser demasiado para tão poucas posses, não houve outro remédio se não o de ir a pé. Imaginem... Impensável nos dias de hoje!
A tia Albertina também por lá viveu meia dúzia de anos. Ali para os lados da Mouraria, num vão de escada onde lhe cabia a cama e pouco mais. Uma escada por onde passavam de cambulhada os inquilinos do prédio todo e a todas as horas do dia. A trote, escada abaixo escada acima, mas que a não impediam de dormir até ao meio dia... Mas já depois de ter ido buscar dois papos secos e um quarto de litro de leite para misturar no café de cevada do companheiro que consigo partilhava a mesma vida embrulhada em pobrezas.
Do que me lembro de me contarem, os dois primos lá chegaram por fim, desgastados da lonjura do caminho, calçando os tamancos à entrada. Quem andasse pelas ruas da baixa e nalguns bairros, haveria de os encontrar por ali, com o carrego dos cestos ou cabazes da fruta e hortaliças às costas, que, de pregão na garganta, lá iam vendendo aos fregueses de ocasião.


 


É como num sonho, só que estas são imagens antigas a passarem-me na mente como se de um filme se tratasse, sem pertencerem a nenhum sonho. Aconteceram mesmo. São reais, mas bastante antigas visto serem das primeiras de que me lembro.
Seria por certo inverno, porque a claridade que a porta meia aberta deixava entrar, a não ser quase nenhuma. Provavelmente o céu carregado de nuvens cinzentas, escuras. Ou talvez até estivesse a chover mesmo. Disso não me recordo.
Lá dentro, o único conforto que existia era uma salamandra a engolir cavacas e para o pé da qual se chegavam os que vinham da rua e ali paravam a dizer qualquer coisa. Um pretexto para aquecer as mãos e os pés, antes de irem todos matar o bicho que estava escondido dentro das pipas na adega.
Nesta memória, naquele dia, uma panela cheia de grude castanho a derreter devagar. Uma mexidelazita de vez em quando com uma ripa curta e, daí a um pedaço, o meu pai com um pincelito a molhar no grude e a esfregar as ranhuras das tábuas onde antes a lâmina afiada do formão, o raspador e a lixa no restante. De seguida as outras com pequenas saliências nos mesmos sítios a encaixarem-se na perfeição, como se fossem peças de um lego qualquer.
Ele a aplicar-lhes uns grampos de rosca e a encostá-las ao alto a um canto para que secassem bem antes de lhes dar o destino final. Talvez uma cabeceira de uma cama ou umas gavetas de alguma cómoda...


 



E lá vem a Ti Silvéria do fundo com uma cesta cheia de maçãs à cabeça. Vem ali do quintal que tem ao Oiteiro, junto ao curralito onde costumavam morar as ovelhas quando o esterco era preciso por causa de adubar a terra aquando da sementeira. As árvores de fruto também agradeciam produzindo grandes e vistosas maçãs e pêras que ali vão agora na cesta.
Ainda lá ficaram algumas miúdas aquém e além, nas árvores, a ver se ganham mais corpo. Ou então, talvez as tenham ali deixado de propósito. Um pretextozito para o rebusco.
Num dia destes, pela tardinha, a canalha por ali aos saltos e a fazer uma grelhida* tamanha dado serem muitos e estarem contentes só por isso, o Ti Augusto Custódio mais o cão a virem por ali acima, a olhar para as árvores e a contá-las a ver se ainda por lá estariam todas... E nisto, a ir apanhar uma ou duas e a tirar-lhe a casca com a navalhita que trazia no bolso, sentado no muro junto à entrada da mina que secou há uma data de anos. Tira uma lasca e mete-a à boca e outra que atira ao cão e que este apanha no ar num ápice que mais parece um tique nervoso em virtude de nem dar tempo de se ver o que era...
Noutro dia qualquer a virem os dois mais o cão e a repetirem tudo outra vez. E o tempo a passar-se e eu aqui a escrever do que me lembro, ou, por tantas vezes o ter visto, o que se me afigura ter sido assim.